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sexta-feira, 8 de maio de 2026

LUGARES: Centro Interpretativo Murais Almada Gares Marítimas



LUGARES: Centro Interpretativo Murais Almada Gares Marítimas
Gare Marítima de Alcântara e Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos
Horários | Diariamente, das 10h00 às 19h00
Ingressos | € 5,00 (bilhete normal, inclui transfer entre as duas gares marítimas)


As gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos nasceram de uma ambição antiga: dotar Lisboa de infra-estruturas capazes de receber o crescente tráfego de passageiros que, desde o final do século XIX, chegava à capital por via marítima. A concretização desse objectivo, contudo, apenas ganhou forma na década de 1930, quando o Ministério das Obras Públicas decidiu integrar estas construções num vasto programa de modernização do país. O projecto foi entregue ao arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, uma das figuras centrais da arquitectura portuguesa da época, responsável por alguns dos mais marcantes edifícios modernistas da cidade. Concebidas como verdadeiras portas de entrada na capital, as duas gares foram desenhadas com uma linguagem racionalista e depurada, onde a organização funcional do espaço se reflecte na sobriedade dos alçados. A sua construção prolongou-se por vários anos e acabou por não coincidir com a Exposição do Mundo Português de 1940, para a qual inicialmente se desejava que a Gare de Alcântara estivesse concluída. Inaugurada apenas em 1943, e seguida em 1948 pela abertura da Rocha do Conde de Óbidos, a dupla infraestrutura passou desde então a marcar o ritmo de chegadas e partidas que ligavam Lisboa ao mundo.

A edificação destas gares inscreve-se plenamente na política de obras públicas desenvolvida durante o Estado Novo e que encontrou no investimento em infra-estruturas um instrumento de afirmação política e económica. Sob a liderança do ministro Duarte Pacheco, o regime promoveu uma intensa campanha de construção que procurava projectar uma imagem de modernização nacional, envolvendo arquitectos e engenheiros numa rede de encomendas públicas sem precedentes. Foi neste contexto que Pardal Monteiro concebeu as gares marítimas e convidou o artista José de Almada Negreiros a integrar o programa decorativo dos edifícios. A colaboração entre ambos não era inédita: já tinham trabalhado juntos na Igreja de Nossa Senhora de Fátima e no edifício do Diário de Notícias, exemplos da articulação entre arquitectura moderna e artes plásticas que caracterizou várias encomendas do período. Nas gares, Almada encontrou uma oportunidade rara de realizar pintura mural em grande escala, concebida desde o início para dialogar com a arquitectura de Pardal Monteiro. O resultado seria um conjunto de obras monumentais que, mais do que simples decoração, transformariam os salões de embarque em autênticos palcos visuais da vida ribeirinha lisboeta.

A visita ao Centro Interpretativo começa no núcleo Cais, onde o percurso expositivo recorda o papel destas infra-estruturas como palco de múltiplas histórias humanas. Fotografias de época, documentos e recortes de imprensa revelam o intenso movimento que marcou estes espaços ao longo do século XX. Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de refugiados passaram por Lisboa na esperança de encontrar um navio que os levasse para longe da Europa em conflito. Nas décadas seguintes, o cais tornou-se também ponto de partida para emigrantes rumo às Américas ou para colonos destinados a territórios africanos sob administração portuguesa. O visitante é convidado a observar essas imagens como fragmentos de uma memória colectiva: filas de passageiros à espera de vistos, famílias que se despedem no cais, soldados que partem para a guerra nas Colónias. Ao mesmo tempo, percebe-se que estes edifícios foram pensados como espaços organizados e modernos, com percursos diferenciados para passageiros de várias classes e serviços que iam da alfândega às agências de turismo. A arquitectura surge, assim, como cenário de uma história feita de deslocações, expectativas e despedidas.

Segue-se o núcleo O que contam as paredes, dedicado à génese das pinturas murais de José de Almada Negreiros. Aqui, o visitante encontra estudos preparatórios, fotografias do processo de execução e documentos que revelam a recepção ambígua que estas obras suscitaram. Longe de representar heróis ou episódios gloriosos da história nacional, Almada preferiu retratar a vida quotidiana das margens do Tejo: varinas, marinheiros, carvoeiras e trabalhadores anónimos que tiravam do rio o seu sustento. Essa escolha, inesperada para uma encomenda oficial, provocou desconforto entre algumas autoridades do regime. No entanto, é precisamente essa atenção às figuras populares que confere às pinturas uma força singular. As cenas multiplicam-se em narrativas vibrantes e por vezes irónicas, como na recriação da história da nau Catrineta, tratada com um tom simultaneamente dramático e humorístico. Através dos documentos expostos, percebe-se que a defesa da obra exigiu o apoio de figuras influentes e a emissão de vários pareceres oficiais, evitando que os murais fossem alterados ou destruídos.

O percurso conduz depois o visitante pelos restantes núcleos expositivos - Passagens, Partidas, Chegadas, História Mural e Diz que disse — que aprofundam as múltiplas dimensões históricas e artísticas do conjunto. Em Passagens, a atenção centra-se nas histórias de refugiados e viajantes que atravessaram Lisboa durante e após a guerra, lembrando episódios como a acção humanitária do diplomata Aristides de Sousa Mendes. Em Partidas e Chegadas, a narrativa acompanha os fluxos migratórios que marcaram o século XX português: a emigração para as Américas, a colonização africana e, mais tarde, o regresso de militares e civis após a descolonização. O núcleo História Mural insere as obras de Almada numa tradição milenar de pintura mural, da arte rupestre às experiências contemporâneas, enquanto Diz que disse reúne testemunhos, entrevistas e documentos que revelam os bastidores da encomenda. Ao terminar a visita, o público é convidado a contemplar os murais no espaço para que foram concebidos. Entre Alcântara e a Rocha do Conde de Óbidos — ligadas hoje por um breve percurso de transporte incluído no bilhete — percebe-se que estas pinturas não são apenas objectos artísticos: são também testemunhos visuais de uma época e de uma cidade em permanente movimento.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

LUGARES: Ateliê António Carneiro



LUGARES: Ateliê António Carneiro - Museu do Porto
Rua de António Carneiro, 363 - Porto
Horários | De terça feira a Domingo, das 10h00 às 17h30
Ingressos | Bilhete normal € 4,00


A exposição inaugural do novo Ateliê António Carneiro no Porto, ao Bonfim, com projecto do Arquitecto Camilo Rebelo, depois de muitos anos encerrado, constitui um momento importante do ponto de vista artístico e cultural ao permitir ao público interessado nas artes tomar um renovado contacto com aquele que é um dos maiores pintores portugueses e, decerto, o que melhor ajudou a fazer a passagem do simbolismo finissecular - de que o Tríptico “A Vida” é exemplo maior a nível Europeu - e uma nova abordagem da pintura que, de certo modo, o aproxima dos Nabis e introduz de tal sorte uma nova consciência modernizante que iria influenciar Amadeu de Souza-Cardoso nos seus inícios. Constituída por grandes núcleos temáticos - “A Paisagem”, “A Chave Simbolista”, “A Família” e “Diálogos” - a exposição acolhe ainda uma relação com a contemporaneidade, ao abrir-se a mostrar como que num diálogo largo no tempo, uma série de obras de escultura de Miguel Branco que, por ocasião da inauguração da exposição e do Ateliê oferece uma obra significativa de escultura pública à cidade, ficando a mesma presente no jardim do Ateliê.

No núcleo de “A Paisagem” privilegiaram-se as obras porventura menos conhecidas do Artista realizadas sobre o tema da paisagem e, na sua maioria, inéditas, já que provenientes de Colecções privadas: este permitirá compreender como a obra de Carneiro fez uma evolução sensível, coerente e sem par na Arte Portuguesa, que mostra a sua atenção ao contexto internacional. Uma série de Marinhas e de Nocturnos, de delicado invenção plástica e complexa execução, evidenciam o sentido de dissolução das formas que, sem ter passado pelo modelo Impressionista, outros pintores europeus seus contemporâneos, como Munch ou Hammershoi, igualmente adoptaram, levando a pintura de Carneiro para um inusitado acercamento expressionista. A “Chave Simbolista” ocupa-se com evidenciar como a arte de Carneiro começou por se abrir ao Simbolismo, então ainda muito forte em França, onde estudou e pintou em 1900 o seu famoso e notável Tríptico, mostrando como a lição dos seus mestres (Soares dos Reis na Escola do Porto e Auguste Carrière em Paris) o marcaram, bem como a atenção que deu a obras como a de Puvis de Chavannes ou mesmo a de Rodin, então já plenamente consagrados na arte francesa.

“A Família” reúne algumas das imagens íntimas em que Carneiro retratou a sua família em aproximações sensíveis verdadeiramente fascinantes, tendo deixado alguns dos mais altos momentos do género do Retrato na arte portuguesa. “Os Diálogos”, abrindo-se às relações com alguns dos seus contemporâneos, percepcionam por um lado uma correspondência até hoje pouco esclarecida - com Aurélia de Souza que vivia na Quinta da China, uma propriedade de família nas imediações do Ateliê e cuja pintura em muitos aspectos faz, com a de Carneiro, a ponte para a consciência moderna na Arte Portuguesa - e, por outro, com outros artistas de que igualmente foi contemporâneo, porventura tendo-os influenciado: obras de Artur Loureiro ou de Amadeo e alguns mais, explicitam de que modo a influência de Carneiro foi ganhando espaço e sentido na arte desse período. Finalmente a presença de Miguel Branco com três núcleos escultóricos, procura mostrar como reverbera ainda, na contemporaneidade, um eco simbolista que importa atender no seu significado ético e estético. Deste modo, a exposição procura apontar caminhos futuros para a programação, que poderão servir a estudar no tempo as relações de António Carneiro com o seu tempo, mas também com o futuro da Arte Portuguesa. 

[Texto de Bernardo Pinto de Almeida, Curador]

domingo, 4 de agosto de 2024

LUGARES: Museu Casa Carlos de Oliveira



LUGARES: Museu Casa Carlos de Oliveira
Rua Conselheiro Costa Soares, 2 - Febres
Horário | Segunda a sexta feira, das 09:00 às 13:00 e das 14:00 às 17:00; sábado, das 09:00 às 13:00 e das 14:00 às 18:00
Ingresso | Entrada grátis


“Meu pai era médico de aldeia, uma aldeia pobríssima: Nossa Senhora das Febres. Lagoas pantanosas, desolação, calcário, areia. Cresci cercado pela grande pobreza dos camponeses, por uma mortalidade infantil enorme, uma emigração espantosa. Natural portanto que tudo isso me tenha tocado (melhor, tatuado). O lado social e o outro, porque há outro também, das minhas narrativas ou poemas publicados (…) nasceu desse ambiente quase lunar habitado por homens (…).”
Carlos de Oliveira, in “O Aprendiz de Feiticeiro”

Carlos Alberto Serras de Oliveira nasceu em Belém do Pará, Brasil, a 10 de agosto de 1921. Filho de emigrantes portugueses, viveu no Brasil até aos dois anos de idade, mas foi em Febres, Cantanhede, onde a família se fixou a partir de 1923, que passou a sua juventude, o que marcará profundamente a sua escrita. Estudou em Coimbra, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas em 1947, e onde estabeleceu amizade e proximidade ideológica e política com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora. Em 1948 mudou-se para Lisboa, onde manteve colaborações pontuais em vários jornais e revistas, como Altitude, Seara Nova e Vértice. Em 1942 lançou o seu primeiro livro de poemas, “Turismo”, integrado na colecção “Novo Cancioneiro”. Entre 1943 e 1953 publicou a maior parte da sua obra de prosa: “Casa na Duna” (1943), volume da coleção dos “Novos Prosadores”; “Alcateia” (1944); “Pequenos Burgueses” (1948); e “Uma Abelha na Chuva” (1953), esta última considerada uma das mais importantes obras da literatura portuguesa e que se tornará um clássico de leitura obrigatória nos programas escolares até final da década de 90. Na poesia Carlos de Oliveira é considerado inovador e um dos poetas do neorrealismo que mais marcas deixou na tradição poética portuguesa. Faleceu a 1 de julho de 1981, em Lisboa.

Febres, simpática vila do Município de Cantanhede, guarda uma parte preciosa do espólio do escritor, sendo ali possível visitar aquela que foi, na infância e juventude, a sua residência e sentir os ambientes próprios de um trabalho que viria a classificar de “vagaroso, feito, desfeito, refeito, rarefeito”. O espaço envolvente nada terá a ver com aquele que encontraríamos há um século, mas o Largo em frente à Igreja ainda ali está, testemunha que foi de grandes disputas de malha em que participavam Carlos de Oliveira e Fernando Namora, em convívio com populares. Impressiva, marcante, a paisagem da infância - “que não é nenhum paraíso perdido mas a pobreza, a nudez, a carência de quase tudo” - surge vertida recorrentemente na sua obra. Disso nos dão conta os painéis explicativos dispostos ao longo do percurso museológico, levando-nos ao encontro da região gandaresa, uma terra “passageira”, feita de “dunas modeladas, desfeitas pelo vento”. Lá estão as “casas construídas com adobos que duram sensivelmente o que dura uma vida humana”, a paisagem física feita de sol e terra, campos e lagoas, juncos e pântanos, barrancos e poceirões, a paisagem humana composta de aldeolas ermas, casebres muito baixos de adobo, leiras de pinhal, vinha, milho, fornos de cal.

Cada divisão do Museu Casa Carlos de Oliveira é um mundo aberto à descoberta de novos mundos. Ali encontramos as obras literárias que compunham a biblioteca do escritor, a sua máquina de escrever, algum mobiliário da casa, um gira-discos, um retrato belíssimo com assinatura de Lima de Freitas. E escritos, muitos escritos, testemunhos dos “(anos) à procura da palavra certa”, repletos de “correções, rasuras, acrescentos”, aquilo que o escritor considerava ser “o meu forte (e o meu fraco)”. Um conjunto de documentos leva o visitante ao encontro do filme de Fernando Lopes, “Uma Abelha na Chuva”, extraído do romance homónimo de Carlos de Oliveira e que contou com a assinatura do escritor no argumento, em co-autoria com o realizador. A parte final da visita mergulha-nos no “recanto dos escritores da Gândara”, testemunho vivo de todos aqueles que, seguindo as pisadas de Carlos de Oliveira, fizeram questão de “extravasar os limites da geografia física para a geografia literária”. Nele figuram, entre outros, os nomes de Idalécio Cação, Mário Cupido, Paulo Frade, Silvério Manata, Ferro Santos, Ribeiro Maçarico, Lurdes Breda e António Canteiro, que com os seus escritos muito vêm acrescentando à afirmação da identidade geográfica, social, linguística e cultural da Gândara.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

LUGARES: Berardo Museu Art Deco



LUGARES: Berardo Museu Art Deco
Rua 1º de Maio, 28 - Alcântara, Lisboa
Horário | Todos os dias, das 10:00 às 19:00
Ingressos | € 6,00 bilhete normal


Instalado no coração da cidade de Lisboa, o Berardo Museu Arte Deco apresenta-se ao público com um importante conjunto de objectos artísticos, naquela que é considerada uma das mais importantes coleções do Mundo no seu segmento. Aberto ao público em 24 de Abril de 2021, o Museu procura recriar a ambiência de várias épocas inspiradas pelas artes decorativas da última década do século XIX, até ao despoletar da Segunda Guerra Mundial. Reunindo obras dos grandes criadores de então como Jacques-Émile Ruhlmann, Alfred Porteneuve, Jean-Michel Frank, Jules Leleu, René Lalique ou Jacques Adnet, a mostra integra todos os componentes da arte decorativa, dos móveis aos trabalhos em ferro, passando pelos candeeiros, objetos de vidro, cerâmica, arte da mesa e pratas, os quais se associam à pintura, escultura, desenho, moda e joalharia, num mostruário notável dos movimentos Arts and Crafts, Arte Nova e Arte Deco.

Poucos museus ou colecionadores no mundo de hoje contam com tamanha diversidade numa só colecção. Márcio Alves Roiter, fundador e presidente do Instituto Art Deco Brasil e um dos comissários desta mostra inaugural, refere-se ao movimento como “um símbolo e resumo da universalidade deste estilo das primeiras décadas do século XX”. Por seu lado, Emmanuel Bréon, o outro comissário da exposição, reforça a raridade da Colecção: “Interessando-se desde logo por todos os componentes da arte decorativa, a Colecção Berardo soube reunir, num mostruário notável, uma coleção muito representativa do estilo 1925 que o mundo inteiro redescobre hoje com agrado. Evidentemente, nem tudo pode ficar resumido nessa única manifestação – nesse ano de 1925 - e a grande força e inteligência da Coleção Berardo consiste em demonstrar que o estilo Arte Deco perdurou até à Segunda Guerra Mundial e que não foi um momento efémero.”

Insaciável, a Colecção Berardo não se fixa apenas nos nomes mais representativos, tendo optado antes por “abraçar” toda uma época, revelando o que de melhor ela produziu. Daí que uma das jóias apresentadas seja o conjunto de desenhos originais de Ruhlmann da Casa de Serralves do Porto, ícone maior da arquitetura civil Deco, que expõe neste novo Museu, juntamente com parte dos mais de 5.000 desenhos originais de pratas da Ourivesaria Reis e Filhos, do Porto, da qual conserva ainda todo o recheio de mobiliário, no estilo Arte Nova. Este equipamento cultural apresenta ainda um espaço de receção e loja, que comunica com um jardim secreto com esplanada, idealizado na gramática Deco. Os visitantes podem disfrutar deste espaço enquanto fazem uma prova de vinhos, rodeados pelos mestres, pela música e pela aura dos “Loucos Anos 20”.