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terça-feira, 11 de agosto de 2026

CINEMA: “Calle Málaga” | Maryam Touzani



CINEMA: “Calle Málaga”
Realização | Maryam Touzani
Argumento | Nabil Ayouch, Maryam Touzani
Fotografia | Virginie Surdej
Montagem | Teresa Font
Interpretação | Carmen Maura, Marta Etura, Ahmed Boulane, María Alfonsa Rosso, La Imèn, Abdelilah Iramdane, Ghali Errazqi, Miguel Garcés, Tarik Rmili, Mohamed Naimane, Sanae Regragui, Fouad Mnebhi, Moustapha Haouchine, Laila Hotait Salas, Mohammed El Aouni
Produção | Nabil Ayouch, Amine Benjelloun, Jean-Rémi Ducourtioux
Marrocos, França, Espanha, Alemanha, Bélgica | 2025 | Drama, Romance | 116 Minutos | Maiores de 14 Anos
Cinema Trindade – Sala 2
09 Ago 2026 | dom | 17:00


Há uma ideia particularmente feliz em “Calle Málaga”: uma casa pode ser a última fronteira entre uma pessoa e a memória que dela resta. Para Maria Ángeles, espanhola de 79 anos nascida em Tânger, a casa onde passou a vida não é matéria, antes ela própria, com todo o seu imenso rol de experiências, emoções e recordações. Cada objecto conta uma história, cada divisão conserva uma rotina, cada ruído vindo da rua fala de pertença. Quando, no auge do desespero, a filha Clara decide vender a casa e levar a mãe para Madrid, a ameaça não é apenas imobiliária. É existencial. Clara precisa de dinheiro e de ajuda, Maria Ángeles precisa de permanecer dona da sua própria vida. Entre ambas há uma tragédia instalada, a de duas pessoas que se amam mas que estão longe de habitar o mesmo tempo. E está Tânger, cidade de fronteiras porosas, de línguas e memórias cruzadas, onde Maria Ángeles encontrou uma forma de pertença. É nesse território entre casa, cidade e memória que Touzani instala o seu filme, percebendo que expulsar alguém do espaço onde viveu toda uma vida pode ditar o seu fim.

Afastando-se de um tom triste ou lamentoso, “Calle Málaga” mostra-nos uma Maria Ángeles obstinada, de temperamento difícil, língua afiada e uma notável capacidade para a desobediência. Carmen Maura assume eese papel desde o primeiro instante e oferece-nos uma interpretação extraordinária, baseada nos olhares e nos silêncios, nos gestos e nas pequenas mudanças na postura do corpo. Quando a personagem começa a recuperar os objectos vendidos ao antiquário Abslam, a luta pela memória transforma-se numa comédia de resistência. Quando entre os dois nasce uma relação amorosa, o filme dá um passo ainda mais corajoso: Touzani não trata o desejo na velhice como anedota, consolação ou extravagância, antes filma-o como parte natural da vida. Há aqui uma provocação importante a uma cultura que continua a associar envelhecimento a neutralização do corpo, como se a passagem dos anos retirasse também o direito ao prazer. O humor, por vezes descarado, torna-se assim uma forma de emancipação. Maria Ángeles ri-se dos outros, de si própria e da situação absurda em que foi colocada porque rir é, neste caso, uma maneira de afirmar a sua própria liberdade.

Nem tudo, porém, possui a mesma força. Touzani por vezes aproxima-se demasiado do conforto emocional, e a progressão narrativa ressente-se de uma certa previsibilidade. Mas seria injusto exigir ao filme uma secura que seria conrária à sua natureza. “Calle Málaga” quer emocionar, quer fazer rir, quer celebrar a possibilidade de um recomeço, quando a vida parece não ter mais nada para dar. E fá-lo com uma consciência rara do valor cinematográfico dos espaços, dos objectos e dos rostos. A câmara de Touzani toca quase fisicamente as coisas que Maria Ángeles teme perder, enquanto a luz de Tânger transforma a cidade num prolongamento da memória da personagem. Até a silenciosa Irmã Josefa, amiga de infância e confessora, se transforma numa ideia feliz: falar sem receber resposta é, para Maria Ángeles, uma forma de garantir que a sua voz continua a existir. No fundo, é disso que o filme trata. Não de envelhecer, mas de poder ser considerado velho demais para ter direito a escolher. E Carmen Maura, sublime e majestosa, responde por Maria Ángeles - e pelo filme - com a única resposta possível: ainda não!