Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta "A alma do papel". Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta "A alma do papel". Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "A alma do papel"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “A alma do papel”,
de Ana Maria Pintora
Museu do Papel Terras de Santa Maria, Paços de Brandão
25 nov > 30 dez 2017


Detemo-nos naquelas folhas de papel grosseiramente talhadas, nas linhas tão minuciosamente desenhadas que percorrem as suas veias, naqueles traços muito finos que se juntam para mostrar paisagens, nas letras que se alinham para contar histórias e é impossível não a vermos lá em baixo, a seguir o curso do rio e aquela brancura... ou deitada na relva, o olhar fixo no céu azul, embalada pelo cantar das águas e dos pássaros. Quando cerra os olhos, é capaz de ver, com toda a nitidez, as mulheres que ali lavavam os vestidos, as calças, as camisas e os lenços brancos de algodão e linho. Também um pintor de pedras que às vezes pintava ovelhas, outras desenhava cabritos, outras vezes ainda pintava abelhas a esvoaçar ou entretinha-se a conversar com outras borboletas. E ainda uma casa de palavras, um depósito de ideias, uma cabana biblioteca onde ficarão guardadas as memórias mais temperadas da vida. Por fim, levanta-se, qual Zéfiro enciumado e rendido. E, regressando aos seus escritos, às suas pinturas e desenhos, volta a mergulhar na alma do papel.

É impossível falar de “A alma do papel” - exposição da pintora Ana Maria que, desde o passado sábado, está patente no Museu do Papel Terras de Santa Maria, em Paços de Brandão -, sem falar do próprio museu, do seu significado e beleza. Para quem não conhece, este museu monográfico, primeiro do género dedicado à História do Papel no nosso País, tira partido do espaço de duas antigas fábricas de papel do início do século XIX, convivendo com o curso da ribeira de Riomaior, que ali corre veloz no fundo das rochas escavadas numa pedreira. É um espaço de calma e serenidade, pautado pelo doce cantar das águas e pelo sussurro dos ventos, tão diferente daquilo que terá sido outrora, quando a produção do papel correspondia a um trabalho de enorme dureza, pouco lucrativo e que, em muitos casos, se encontrava dependente da existência ou não de água nos cursos dos rios. E este aspecto é tanto ou mais importante quanto sabemos que o conjunto de trabalhos expostos resulta da residência artística de Ana Maria neste espaço. Um espaço de criação, com o qual a artista se envolveu para produzir obra e cuja matriz é o próprio papel. Um suporte frágil e delicado, caprichoso. E em cuja alma se encerram segredos por desvendar.

Numa simbiose perfeita entre espaço e objecto artístico, “A alma do papel” é um convite ao sonho e ao encantamento. Cada folha daquele papel, grosseira, irregular, conta uma história, que a delicadeza do traço apenas sublinha. São poemas visuais, os trabalhos da pintora Ana Maria. Poemas com poemas dentro. Que falam de rapazes e de velhas, de primaveras e jacintos brancos, de planetas azuis e árvores com motores que sugam a água da terra, de sementes de algas pequeninas verdes azuis e de uma princesa Niúka Maior. E assim falando, espalham o eco das suas palavras entre as Casas do Lixador e do Espande, ouvindo cantar o moinho de galgas, a pila holandesa e a roda do maxão e vendo nascer a primeira folha de papel no Engenho da Lourença.

A princesa Niúka morreu,
mas a mina guarda a Alma do Papel e
Nós
agora,
também!