Páginas

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

TEATRO: "O Pai" | August Strindberg



TEATRO: “O Pai”,
Texto | August Strindberg
Tradução | António Cabrita, Luís Miguel Cintra
Encenação | Gonçalo Waddington
Desenho de luz | Daniel Worm
Cenografia e Figurinos | Ângela Rocha
Interpretação | Carla Maciel, Cecília Borges, Gonçalo Waddington, Hugo Narciso, Joana Bárcia, João Pedro Vaz, Miguel Sopas
Produção | Gonçalo Waddington e Carla Maciel
90 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional S. João
18 Out 2026 | dom | 16:00


Tragédia de uma autoridade sem poder, “O Pai”, de August Strindberg, pertence àquele género de obras cuja aparente simplicidade esconde uma mecânica de precisão, feita de suspeitas, recuos e golpes desferidos no âmago da intimidade. O Capitão Adolfo dispõe de dinheiro, posição social, autoridade militar e privilégios que a sociedade oitocentista reservava ao homem. Privada de instrumentos equivalentes, Laura, a esposa, contrapõe-lhe a inteligência, a determinação e o conhecimento das fragilidades do marido. Mas a autoridade não coincide necessariamente com o poder, nem a razão garante a vitória. No centro da discórdia está a disputa em torno do destino de Berta, a filha do casal, apresentada aqui não como uma divergência sobre a sua educação, antes como pretexto para uma luta conjugal pelo poder. É neste desfasamento que a tragédia se instala, recusando ao espectador o conforto de um julgamento inequívoco. Gonçalo Waddington evita reduzir o conflito à caricatura do macho autoritário e expõe, antes, a violência de uma relação em que o domínio se disfarça de razão e o amor se converte em campo de batalha.

O Capitão Adolfo é um homem de contradições: militar por condição, cientista por vocação, poeta por inclinação, possui inteligência para compreender o mundo, mas não autoridade para governar a própria casa. Habituado à prova e à demonstração, vê-se subitamente condenado ao território da suspeita, onde nenhuma evidência restitui a segurança perdida. A possibilidade de não ser o pai biológico de Berta atinge o centro da sua identidade e ameaça a relação que ainda o prende à vida. Gonçalo Waddington constrói uma desagregação progressiva em que a vulnerabilidade precede a violência e a lucidez torna mais cruel a consciência da queda. Mais do que os acessos de cólera, importa a impotência de quem assiste à própria ruína sem conseguir travá-la. Carla Maciel confere a Laura a inteligência fria de quem conhece as fraquezas do adversário e sabe que sobreviver exige saber usá-las. Sem absolver a personagem nem a condenar ao estereótipo da mulher manipuladora, a actriz preserva-lhe a ambiguidade: Laura resiste a uma ordem que a diminui, mas os seus métodos tornam difícil separar a emancipação da crueldade.

A opção por não transpor a acção para o presente revela confiança na capacidade de reverberação do texto. A modernidade do espectáculo não depende da actualização temporal, mas da exposição, através de uma linguagem cénica despojada e intemporal, da violência escondida sob os códigos da família burguesa. A casa transforma-se numa jaula sem grades ostensivas, e o espectador perde a inocência de quem julga observar de fora. O peso ideológico de Strindberg, marcado pela hostilidade às mulheres, não desaparece. Mas seria redutor fazer de Laura a simples confirmação de uma tese misógina ou de Adolfo uma vítima sem culpa. Waddington prefere a pergunta à sentença, recusando distribuir certificados de inocência. As personagens da irmã, do padre, do médico e do ordenança, alargam o conflito à persistência dos hábitos, das crenças e das incertezas em torno da paternidade. O que resta não é a vitória de um sexo sobre o outro, mas a devastação de uma relação em que o amor se tornou inseparável da vontade de domínio. No final, a dúvida persiste: quem destruiu quem, e quando deixou de ser possível evitar a ruína? A crueldade de “O Pai” reside precisamente nessa loucura que não irrompe de repente, antes constrói-se, palavra a palavra, com a participação de todos.

[Foto: ©EGEAC – Teatro São Luiz, Estelle Valente | https://www.tnsj.pt/pt/espetaculos/7255/o-pai/]

Sem comentários:

Enviar um comentário