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sábado, 10 de outubro de 2026

LIVRO: "Quando" | Carla Madeira



LIVRO: “Quando”,
de Carla Madeira
Ed. Particular Editora, Setembro de 2026


“Muito se vive e morre em uma mesma espera. Ele vem?, pergunta Viridiana a Margarida, a filha mais velha, assim que ela entra no quarto carregando uma bandeja com o café da manhã e interrompe seus pensamentos, Disse que vem, mamãe, bom dia! como foi sua noite? Ele sabe, Margarida, seu irmão sabe que eu estou morren… Viridiana interrompe, bruscamente, a pergunta que faria na tentativa de evitar seus efeitos sobre Margarida, pobre Margarida, suspira, tornou-se tão frágil quanto uma pele descolada de um corpo exposto ao sol excessivo, ainda assim, Viridiana não é capaz de mudar totalmente de assunto, dado que falar do tempo na situação crítica em que se encontra é o mesmo que falar da morte, Tito está demorando, filha, já não tenho mais como negociar minhas horas, nem como manter a dignidade frente à grosseria das dores, Eu sei, mãezinha, mas ele está vindo, e Margarida diz isso com todo o amor que sente pela mãe, o único amor que nunca a confundiu, (…)”

Quarto romance de Carla Madeira, “Quando” parte de uma pergunta com tanto de simples como de complexa. Afinal, por que razão uma mãe à beira da morte espera há vinte anos pelo filho que ela própria denunciou à polícia? Com esta questão em mente, o leitor vai percebendo que nenhuma resposta se oferece sem antes ser atravessada pela culpa. Viridiana, envelhecida e consumida pela doença, aguarda Tito como quem aguarda simultaneamente a reparação e o julgamento de uma vida. Entre 1986 e 2006, a narrativa recompõe, através de um conjunto de vozes diversas, o acontecimento que separou mãe e filho e as suas consequências sobre uma família incapaz de se libertar do passado. De forma consciente, a narrativa não está aqui para absolver ou condenar. À escritora interessa-lhe, antes, a zona incerta onde o amor convive com a violência e onde uma decisão pode ser simultaneamente justa e devastadora. De súbito, a maternidade surge despojada de qualquer idealização, sujeita ao medo, ao erro, ao ressentimento e à impotência. A família deixa de ser refúgio para se tornar o lugar onde o preconceito e as feridas mais antigas encontram morada. A homofobia, o machismo, a violência policial e as marcas da ditadura brasileira dos anos 80 infiltram-se na intimidade e determinam destinos. O trauma individual torna-se, assim, memória familiar e também sintoma de uma violência social que ainda marca gerações.

A ambição de “Quando” está tanto na matéria que conta como na forma de a contar. A romancista abandona a linearidade e entrega o romance a uma polifonia em que narradores, tempos e perspectivas se cruzam, obrigando o leitor a reconstruir aquilo que as personagens parecem não conseguir compreender inteiramente. O resultado poderia resvalar para o excesso, mas Carla Madeira encontra uma forma particularmente feliz de converter a perturbação das personagens em perturbação da própria linguagem. Os longos períodos sem pontuação, sobretudo quando Viridiana revive a espera pelo filho, fazem da leitura uma experiência física: as pausas não existem porque a espera também não as conhece. É o “baixo contínuo” de que fala a autora, um ruído persistente que acompanha todos os gestos da existência. Feita de associações inesperadas, oralidade e achados sintácticos, a escrita encontra aqui uma maturidade nova, eminentemente poética. Há sempre um risco inerente a uma escrita tão marcada pelo fraseado, mas parte do interesse do romance está nesse seu lado experimental, recusando repetir fórmulas já consagradas. Depois do êxito de “Tudo é Rio”, seria fácil regressar aos mesmos mecanismos emocionais. Carla Madeira escolhe o caminho mais difícil, porém, ao ampliar a arquitectura narrativa, transformando a linguagem numa extensão do trauma.

Entre todas as vozes que compõem este tecido familiar, a de Francisco é talvez a mais luminosa. A sua percepção inocente, alheia às categorias morais dos adultos, revela aquilo que as outros personagens tentam esconder ou explicar. O episódio do vestido de Barros é exemplar: enquanto os adultos projectam sobre o gesto os seus preconceitos, Francisco limita-se a observar, perguntar e narrar, deixando exposta a arbitrariedade de uma violência que aprendeu a normalizar-se. É também através dele que “Quando” encontra uma ternura capaz de contrariar a dureza do romance. Carla Madeira escreve, afinal, sobre a impossibilidade de apagar aquilo que nos acontece. O “engrama” do título conceptual do trauma torna-se uma espécie de inscrição invisível que orienta afectos, ressentimentos e escolhas, muito depois de o acontecimento ter terminado. Viridiana espera por Tito durante vinte anos, mas talvez seja essa espera que, paradoxalmente, a mantenha viva. O romance vale justamente por não resolver essa contradição. O amor pode ferir, a culpa pode sobreviver ao culpado, e o perdão pode chegar tarde. Ou nunca chegar.

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