Chegou ao fim no passado domingo a exposição de fotografia “RAMOT - António da Costa Cabral”, que durante praticamente quatro meses tomou conta do Centro de Estudos em Fotografia de Tomar – Casa dos Cubos e de uma ala do Convento de Cristo. Anagrama de Tomar e pseudónimo de António da Costa Cabral (1901-1974), RAMOT condensa a dupla condição de uma identidade que se desdobra e de um território que permanece, não apenas como origem biográfica, mas como horizonte afectivo. Mais do que a recuperação de um legado fotográfico discreto, a exposição ensaiou um reencontro entre o homem, a cidade e as imagens através das quais ambos sobrevivem ao tempo. Quarto conde de Tomar, Costa Cabral viveu parte da infância e juventude no Convento de Cristo, então residência familiar, antes de fixar em Lisboa o seu quotidiano e o espaço doméstico que tantas vezes haveria de fotografar. O regresso simbólico a Tomar adquire, assim, uma espessura particular: o lugar da memória torna-se lugar de exposição, e a obra, atravessando a distância entre a intimidade e o património colectivo, devolve-nos uma cidade que é, simultaneamente, geografia e construção do olhar. Há, neste percurso, qualquer coisa de subtilmente paradoxal: um fotógrafo que não procurou o protagonismo regressa pela força silenciosa das imagens que deixou.
Na Casa dos Cubos, as provas de época a preto e branco permitem reconhecer a materialidade de uma prática em que fotografar era também esperar, revelar, imprimir e escolher. A câmara Leica, a câmara escura instalada no sótão doméstico e os vestígios documentais de uma participação nos salões nacionais e internacionais não constituem meros elementos de contexto, antes revelam a disciplina de um olhar que, mesmo exercido à margem da profissionalização, não dispensava o rigor técnico nem a ambição formal. Retratos familiares, paisagens, cenas marítimas, pescadores no trabalho e fragmentos da vida lisboeta compõem um universo heterogéneo, unido por uma atenção persistente à presença humana e à organização visual do quotidiano. Entre a composição cuidada, a experimentação com a luz e a observação quase furtiva dos espaços públicos, emerge uma curiosidade que resiste à classificação. No Convento de Cristo, a apresentação digital de centenas de imagens familiares, acompanhada por filmes domésticos, introduz outra temporalidade, aproximando a fotografia do movimento e da sucessão cinematográfica. A solução alarga o arquivo à dimensão dos gestos e das relações, embora o fluxo projectado possa, por vezes, atenuar a autonomia de cada fotografia e a atenção demorada que as provas originais reclamam. Entre a contemplação e a sucessão, entre a superfície material da prova e a fluidez da projecção, a exposição torna visível não só a diversidade dos suportes, mas também a tensão entre a imagem como objecto e a imagem como memória em circulação.
A extensão do registo familiar poderia confinar a obra à nostalgia de um círculo privado, mas Costa Cabral não se limitou a fotografar os seus próximos, os interiores domésticos ou os cenários da vida familiar. A deambulação por Lisboa, a atenção aos lugares de trabalho, às ruas, às viagens e aos encontros ocasionais revelam uma disponibilidade para o imprevisto, para aquele instante em que o quotidiano, sem deixar de ser banal, adquire uma inesperada densidade visual. Por vezes, o enquadramento oblíquo ou a escolha de um pormenor aparentemente secundário deslocam o centro de interesse e mostram que ver é também seleccionar, excluir e atribuir sentido. Esta dimensão impede que a sua obra seja lida apenas como testemunho de uma época ou inventário sentimental de uma família. Há nela uma ética da atenção que aproxima o exercício amador de uma forma exigente de conhecimento. A amplitude do material reunido coloca, ainda assim, um desafio à exposição, cuja diversidade nem sempre permite distinguir com igual clareza o ensaio formal, o registo privado e a observação social. Ao despedir-se de Tomar, “RAMOT” deixou, pois, mais do que a memória de um fotógrafo recuperado. Deixou a possibilidade de reconsiderar o que uma imagem aparentemente menor pode conter: a duração de uma vida, a transformação de um lugar e a presença irrecuperável daquilo que, por um instante, alguém soube ver.
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