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terça-feira, 27 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lugares Encantados” | Ciril Jazbec, Ana Elisa Sotelo, Sadith Silvano, Giorgia Severi, Seif Kousmate e Michał Łuczak



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lugares Encantados”,
de Ciril Jazbec, Ana Elisa Sotelo, Sadith Silvano, Giorgia Severi, Seif Kousmate e Michał Łuczak
Curadoria | Wiktoria Michałkiewicz
Encontros da Imagem de Braga 2026
Mosteiro de Tibães
18 Set > 01 Nov 2026


Patente ao público no Mosteiro de Tibães só até ao próximo domingo, a exposição colectiva de fotografia “Lugares Encantados”, integrada nos Encontros da Imagem de Braga 2026, propõe uma reflexão sobre as relações entre o ser humano e o mundo natural, questionando a ideia de que a natureza existe sobretudo para ser dominada, explorada ou transformada em recurso. Com curadoria de Wiktoria Michałkiewicz, a mostra reúne cinco projectos que, partindo de geografias e linguagens distintas, convergem numa inquietação comum: como habitar um planeta cujos equilíbrios estão a ser profundamente alterados pela acção humana? Entre os Andes, a Amazónia, a Papua Ocidental, os oásis marroquinos e as paisagens mineiras da Polónia, as imagens revelam territórios onde a crise ambiental não é uma abstracção estatística, mas uma realidade inscrita na água, no solo, no ar e na vida das comunidades. O encantamento sugerido pelo título não corresponde, pois, a uma fuga para um universo idealizado. É antes um convite a reaprender a olhar, reconhecendo que a sobrevivência colectiva depende de formas de coexistência que a modernidade cada vez mais desvaloriza.

Em “Dream to Heal Glaciers”, Ciril Jazbec acompanha comunidades andinas confrontadas com o recuo dos glaciares e a crescente insegurança hídrica, mostrando como o conhecimento científico pode dialogar com práticas ancestrais na procura de soluções. As estupas de gelo, estruturas artificiais que armazenam água para os períodos de maior escassez, materializam essa aliança entre adaptação e memória. Noutro registo, “Retratos do Multiverso”, de Ana Elisa Sotelo e Sadith Silvano, aproxima a fotografia dos bordados “kené” da tradição Shipibo, fazendo do encontro entre duas linguagens uma passagem entre o visível e o invisível. Aqui, a floresta amazónica não se reduz a cenário ou inventário de espécies: constitui um universo de relações, saberes e forças que escapam a uma leitura estritamente ocidental. Em ambos os projectos, a imagem ganha uma dimensão que ultrapassa o testemunho documental. Mostra comunidades que não se limitam a sofrer os efeitos das transformações ambientais, mas preservam conhecimentos e produzem respostas, afirmando outras possibilidades de compreender e cuidar do mundo.

A ameaça aos ecossistemas assume contornos diferentes em “Jaya”, de Giorgia Severi, e “WAHA”, de Seif Kousmate. Na Papua Ocidental, Severi cruza fotografia, pintura, cerâmica e técnicas de apropriação material para abordar a degradação dos recifes de coral, a poluição pelos plásticos, a pressão turística e a perda de biodiversidade. O seu trabalho distingue-se também pela colaboração com comunidades e iniciativas locais de conservação, procurando que a criação artística não termine na denúncia, mas participe, ainda que modestamente, na protecção dos territórios retratados. Em “WAHA”, Kousmate interroga a fragilidade dos oásis marroquinos, sistemas delicados em que água, vegetação, solo e clima sustentam formas de vida moldadas por séculos de adaptação. Ao contrariar a imagem exótica e romantizada destes lugares, o fotógrafo expõe a erosão de um equilíbrio simultaneamente ecológico e cultural. Ambos os projectos recusam a paisagem como fundo contemplativo, tornando-a num organismo vulnerável, onde as consequências da globalização e dos modelos de exploração se tornam visíveis, sem que desapareçam as possibilidades de resistência.

É, contudo, em “Extraction”, de Michał Łuczak, que a violência da transformação ambiental adquire uma proximidade particularmente inquietante. Na Alta Silésia, região polaca marcada por mais de dois séculos de mineração de carvão, casas inclinadas, passeios que cedem e resíduos industriais testemunham uma exploração cujos efeitos persistem para lá do encerramento das minas. A paisagem degradada não é aqui uma realidade distante, mas o espaço quotidiano de quem nela vive, respira e reconhece a sua própria responsabilidade. Esta consciência atravessa, de formas diversas, toda a exposição. Não basta lamentar a destruição, nem será suficiente substituir um modelo de progresso por outro que conserve intacta a lógica do domínio. “Lugares Encantados” sugere antes a necessidade de rever a posição humana no interior de uma comunidade mais ampla de seres e matérias. No Mosteiro de Tibães, o diálogo entre imagens e territórios abre, assim, uma interrogação que é também política: que futuros poderemos construir se aceitarmos que cuidar do planeta implica, antes de mais, aprender a partilhá-lo?

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