LIVRO: “Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?”,
de Dora Gago
Edição | Dinis H. Machado
Ed. The Poets and Dragons Society, Março de 2026
“Desejo-lhe, mais uma vez, que tudo corra bem, que não seja nada de grave. Vejo-me a ajudar. Mas fazer o quê? Não posso. Nada me autoriza a cruzar os portões da privacidade alheia, a entrar em vidas para as quais não posso ser chamada, territórios interditos. Sou a estranha, a estrangeira que sabe bem o que é cruzar abismos, que dilacerou os pulsos nas arestas aguçadas desses precipícios, chegou ao fundo, que se estatelou nos seus empedrados, nos poços mais recônditos da alma humana, mas que foi resgatada - na dor de uma bofetada, na picada de uma seringa, no choque de um desfibrilhador, mas sempre salva, como se tivesse sete vidas e já as houvesse engolido todas na desajeitada labareda de um imprudente viver.”
“Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?”, de Dora Gago, é um livro ditado pela memória, pela experiência e pela literatura. Depois de “Palavras Nómadas” e “Floriram por Engano as Rosas Bravas”, nos quais a autora evidencia uma enorme acuidade em apreender Macau nos seus múltiplos contrastes, este livro constitui um regresso a uma cidade simultaneamente reconhecível e estranha, fechada sobre si mesma pela pandemia e pelas rigorosas medidas de confinamento. Nesse território suspenso, onde o luxo dos casinos convive com a miséria dos trabalhadores migrantes, cruzam-se Ana Cláudia, Jenny e Kate, três mulheres com histórias, feridas e desejos muito diferentes. Com elegância e uma enorme subtileza, a romancista aproxima estas vidas sem forçar encontros nem transformar coincidências em artifícios narrativos. As personagens tocam-se, contaminam-se, deixam marcas umas nas outras, como se pertencessem a uma mesma cartografia da fragilidade. É tempo de expôr as contradições de uma sociedade onde a prosperidade coexiste com a fome, a vigilância convive com a solidão e os mais vulneráveis, sobretudo as mulheres, suportam o peso maior da violência, da precariedade, do desemprego e da exclusão.
Há, porém, em Dora Gago, um olhar que vai além da simples denúncia. A autora observa, interroga e, sobretudo, escuta aquilo que muitas vezes permanece oculto para lá das aparências. A miséria dos trabalhadores não residentes, a violência doméstica, a dependência, a doença mental, a exploração e a fome surgem sem o conforto de uma distância meramente sociológica: são experiências inscritas nos corpos e nas consciências das personagens. O casino, lugar emblemático da riqueza e da fantasia, torna-se assim o cenário de uma outra espécie de ruína, onde os que nada têm arriscam o pouco que lhes resta. Esta atenção ao humano revela as preocupações sociais e morais que atravessam a escrita de Dora Gago, sem a transformar numa literatura de tese. Pelo contrário, a narrativa conserva uma dimensão poética e simbólica que lhe permite avançar entre o real e o delírio, entre a lucidez e a alucinação, sem perder o chão. A escrita é sensorial, por vezes febril, capaz de transformar um perfume, um vestido vermelho, um abraço ou uma mesa de jogo em sinais de desejo, obsessão ou desespero. As imagens da aranha e da serpente, o dragão, os rituais chineses, os fantasmas e os sonhos participam dessa atmosfera inquietante. E há ainda a presença tutelar de Camilo Pessanha, de Maria Ondina Braga e de Lídia Jorge, entre outras referências, numa escrita que assume a literatura como memória, diálogo e matéria de reinvenção.
Mas é na história de Ana Cláudia que o romance encontra a sua dimensão mais íntima e comovente. Personagem que acompanha Dora Gago há mais de uma década, Ana regressa agora com um passado de doença mental e toxicodependência, carregando consigo uma infância que a autora ficciona a partir das suas próprias origens. O barrocal algarvio surge então como contraponto a Macau, ambos territórios de escassez e de fronteiras, mas também de descobertas, alegrias, decepções e medos. Essa infância não aparece como simples exercício de nostalgia; é antes uma espécie de raiz a que Ana Cláudia regressa quando tenta reconstruir-se, uma reserva de imagens onde a privação convive com a luminosidade. Entre o barrocal e Macau, entre a memória e o presente, entre a loucura e a sanidade, Dora Gago constrói um romance de fragmentos que teimam em agregar-se. O título, tomado de um verso de Pessanha, anuncia desde logo essa poética da rasgadura: há qualquer coisa que foi violentamente interrompida, mas também qualquer coisa que insiste em permanecer. Dora Gago mostra que, quando tudo parece desfeito - o amor, a estabilidade, a identidade, a própria ideia de futuro -, sobrevivem a linguagem, a memória e a capacidade de continuar. É nesse gesto frágil de resistência, entre feridas e metamorfoses, que a literatura de Dora Gago encontra a sua mais funda humanidade.
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