Há algo de paradoxal na forma como tendemos a olhar para um retrato fotográfico. Entre o rosto que se oferece à objectiva e aquele que a imagem devolve existe sempre uma distância, feita de pose, expectativa, luz e tempo. Procuramos uma pessoa, mas encontramos uma construção. É precisamente nesse intervalo que se instala “Identidade, Retrato Social 2016 - 2026”, de Nuno Marcelino, patente no Museu Nacional Soares dos Reis. Ao longo de uma década, o fotógrafo construiu um arquivo de rostos através do processo de colódio húmido, técnica oitocentista cuja lenta construção parece contrariar a velocidade contemporânea da imagem. A escolha não é meramente formal. Num tempo em que a fotografia se tornou instantânea, abundante e descartável, Nuno Marcelino pede ao retratado que permaneça. Cada sessão implica espera, concentração e uma relação física com o dispositivo fotográfico, devolvendo à imagem uma dimensão quase ritual. O resultado são retratos que parecem existir fora do presente, como se cada pessoa tivesse sido arrancada ao fluxo quotidiano para ocupar, por alguns instantes, uma zona de suspensão. A exposição recupera, assim, uma pergunta antiga: para que serve um retrato? A resposta do artista não parece estar na identificação de quem posa, mas na possibilidade de transformar uma presença individual em testemunho de uma época. O rosto deixa de ser apenas rosto e passa a ser documento, memória e sinal de pertença a uma comunidade humana mais vasta.
A dimensão social do projecto torna-se mais evidente quando os retratos são vistos em conjunto. Pessoas de diferentes origens e percursos surgem lado a lado, sem que a exposição procure hierarquizar os seus estatutos ou transformar a diversidade num inventário sociológico. Há, antes, uma espécie de nivelamento produzido pela própria linguagem fotográfica. Diante da câmara, cada retratado dispõe do mesmo tempo, da mesma frontalidade e de uma semelhante solenidade. É uma escolha que recupera, de forma indirecta, a história social do retrato fotográfico evocada por Marcos Cruz no texto que acompanha a exposição: a fotografia nasceu também da necessidade de uma sociedade em transformação se ver e se afirmar, tornando acessível a representação que durante séculos estivera sobretudo reservada às elites. Marcelino retoma esse potencial democratizador, mas coloca-o perante uma sociedade muito diferente. Já não se trata de conquistar o direito à representação através da posse de um retrato, mas de resistir à invisibilidade produzida pela circulação incessante de imagens. Numa cultura dominada por fotografias rápidas, filtradas e imediatamente substituíveis, estes retratos parecem reclamar o direito a permanecer. A sua estranheza nasce justamente daí. Reconhecemos nos rostos pessoas concretas, mas a técnica introduz uma espécie de deslocação temporal que as torna simultaneamente próximas e distantes. O familiar torna-se inquietude. O indivíduo deixa de ser apenas alguém que conhecemos e passa a representar também aquilo que não conseguimos apreender inteiramente no outro: uma identidade que a fotografia fixa sem nunca conseguir esgotar.
É no diálogo com o Museu Nacional Soares dos Reis que “Identidade, Retrato Social 2016 - 2026” encontra uma das suas dimensões mais intensas. Colocados em relação com os retratos históricos da colecção, os trabalhos de Nuno Marcelino deixam de ser apenas um projecto contemporâneo sobre pessoas contemporâneas. Passam a integrar uma cadeia de representações que atravessa épocas, classes e linguagens. O confronto permite perceber que a vontade de fixar um rosto permanece, embora tenham mudado radicalmente os instrumentos e as razões para o fazer. Se os retratos antigos documentam figuras cuja memória foi legitimada pela história, os de Marcelino introduzem no espaço museológico uma outra possibilidade: a de que qualquer rosto possa constituir matéria de memória. É uma operação discreta, mas politicamente significativa. Ao levar para o museu pessoas que, em muitos casos, não pertencem ao universo tradicional da representação institucional, o fotógrafo questiona quem merece ser visto, guardado e lembrado. A exposição acaba, por isso, por ser menos uma celebração da técnica do que uma reflexão sobre a permanência. O colódio húmido, com as suas imperfeições, densidades e acidentes, recusa a promessa de uma imagem absolutamente transparente. Há sempre uma camada de mistério entre o espectador e o retratado, nessa opacidade residindo a força do projecto. A exposição não pretende explicar os seus rostos. Prefere deixá-los existir, demoradamente, diante de nós. Num tempo em que quase tudo é fotografado para desaparecer logo depois, Nuno Marcelino faz do retrato um acto de resistência ao esquecimento.
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