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quarta-feira, 22 de abril de 2026

DANÇA: “sensível” | Maurícia | Neves



DANÇA: “sensível”
Conceito, direcção, dramaturgia, figurinos e cenografia | Maurícia | Neves
Co-criadoras, palhaças, voz e texto | Ana de Oliveira e Silva, Mara Nunes, Maurícia | Neves
Assistência de figurinos e cenografia | Ana de Oliveira e Silva, Mara Nunes
Design de iluminação | Vera Martins
Design de som, música original e assistência de dramaturgia e criação | Jo Castro
Interpretação | Maurícia Barreira Neves, Ana de Oliveira e Silva, Jo Castro, Mara Nunes, Vera Martins
Produção | Maurícia | Neves
90 Minutos | Maiores de 16 Anos
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Teatro Campo Alegre - Café-Teatro
19 Abr 2026 | dom | 15:00


“sensível”, apresentado no âmbito do DDD – Festival Dias da Dança, propõe uma interrogação que ressoa para além do espaço cénico: como preservar a capacidade de sentir num tempo saturado de estímulos e anestesias? A peça convoca a figura da palhaça, não enquanto veículo de riso fácil, mas como dispositivo de exposição e vulnerabilidade, desarmando expectativas e recusando a caricatura. Neste gesto, as intérpretes — Maurícia Barreira Neves, Ana de Oliveira e Silva, Jo Castro, Mara Nunes e Vera Martins — constroem um território híbrido, onde o humor cede lugar à inquietação e à escuta. A dramaturgia não se organiza em torno de uma narrativa linear, mas antes num encadeamento de estados, o corpo como superfície de inscrição de afectos e tensões. “sensível” não procura entreter, mas antes implicar, instaurando um pacto de atenção que desloca o olhar e reconfigura a experiência do assistir.
Exige-se do espectador uma presença activa, uma disponibilidade para acompanhar os desdobramentos subtis da acção, num tempo que se dilata e resiste à pressa.

O percurso de Maurícia Barreira Neves ajuda a compreender a tessitura conceptual do espectáculo. A sua prática, marcada pela transversalidade entre dança, performance, instalação e música, revela uma insistência em problematizar os modos de produção e recepção artística. Desde criações como “This is not entertainment” (2013) ou “This is not for sale e é um manifesto”(2018), a coreógrafa tem vindo a construir uma linguagem que tensiona as fronteiras entre o objecto artístico e o gesto político, frequentemente recorrendo à ironia como ferramenta crítica. Em “sensível”, essa herança manifesta-se na recusa de uma estética complacente e na aposta num corpo que se deixa afectar pelo mundo, que se contamina e se reconfigura em permanência. A colaboração com outras intérpretes reforça a dimensão colectiva do projecto, onde cada presença contribui para um tecido relacional denso e poroso. O palco torna-se, assim, um espaço de negociação contínua, no qual identidade, fragilidade e resistência se entrecruzam, convocando o público para um exercício de empatia activa.

Mais do que oferecer respostas, “sensível” instala um campo de possibilidades onde o recomeço surge como gesto ético e político. A insistência na escuta — de si, do outro, do que está em volta — aponta para uma prática de atenção que contraria a lógica dominante da distracção e do consumo rápido. Ao expor a precariedade dos corpos e das relações, a peça reivindica a importância de permanecer permeável, mesmo quando isso implica desconforto. Há, neste trabalho, uma vontade clara de situar o sujeito no mundo contemporâneo sem recorrer a fórmulas fechadas, antes abrindo brechas para pensar outras formas de estar e de agir. Despojada de artifícios, a figura da palhaça transforma-se num espelho inquietante, devolvendo ao espectador a responsabilidade de se posicionar. “sensível” afirma-se, assim, como um gesto de resistência delicada, onde a fragilidade não é sinónimo de fraqueza, mas condição necessária para imaginar futuros mais atentos, mais implicados e, talvez, mais humanos.


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