Apresentada na nave e no mezanino do Centro de Arte Moderna Gulbenkian, a exposição “Habitar a Contradição”, de Carlos Bunga, espalha-se no espaço como um organismo instável. Mais do que ocupar as amplas galerias, parece respirá-las, dobrando a arquitectura e devolvendo-a sob a forma de um território provisório. A grande instalação de cartão que domina a nave - um bosque de colunas cilíndricas erguidas com fita adesiva, tinta e fragilidade - cria uma paisagem simultaneamente sólida e precária, como se o edifício estivesse em permanente ensaio sobre si próprio. O visitante atravessa corredores, desvios e becos que não prometem orientação, mas antes a experiência de um lugar em mutação. É nesse movimento que a obra de Bunga se afirma, não como forma concluída, mas como processo. Herdando algo do espírito experimental que marcou a sua formação nas Caldas da Rainha, o artista transforma a pintura num campo expandido, no qual arquitectura, gesto e corpo convergem. O que outrora foi superfície, é agora espaço habitável; o quadro dissolve-se em ambiente. Assim, a exposição opera como uma espécie de laboratório sensorial onde o acto de construir é também o de questionar - questionar o lugar da arte, a estabilidade das formas e a própria ideia de abrigo.
No centro conceptual da exposição encontra-se a noção de casa, mas esta surge longe de qualquer estabilidade doméstica. Bunga aproxima-se dos objectos do quotidiano - cadeiras, mesas, fragmentos de mobiliário - para os deslocar da sua função e introduzi-los num regime de estranheza. As peças reunidas no átrio do museu sugerem um ambiente doméstico possível, mas incompleto, quase fantasmático. Ali, a ausência pesa tanto quanto a presença: móveis que parecem esperar por corpos que já partiram, superfícies que carregam marcas de uso e de improviso. Esta dimensão incompleta faz eco da própria biografia do artista, marcada pelo deslocamento e pela experiência da habitação precária. Em vez de representar a casa, Bunga propõe uma reflexão sobre o que resta dela quando se perde o território fixo que a sustenta. O lar deixa então de ser um espaço arquitectónico para se tornar numa condição afectiva e imaginária. Ao humanizar o espaço institucional com materiais pobres e vulneráveis, o artista reintroduz uma escala íntima no interior do museu, transformando o visitante em habitante temporário de uma memória partilhada. Há algo de silenciosamente político neste gesto, lembrando que toda a arquitectura, seja ela doméstica ou museológica, é sempre atravessada por histórias de pertença, exclusão e reinvenção.
Essa dimensão autobiográfica torna-se particularmente intensa nas obras dedicadas à figura materna e à infância. Fotografias da mãe do artista, captadas na Lisboa nocturna dos anos oitenta, introduzem na exposição uma presença frontal e desarmante. Nelas, a mulher surge elegante, segura de si, mas também carregando o peso de uma história de migração e sobrevivência. Fugida de Angola em 1975, grávida e com uma filha pequena, chegou a Portugal quase sem recursos, reinventando-se através do trabalho e do corpo. Ao ampliar essas imagens, colocando-as no espaço expositivo, Bunga transforma a memória familiar num gesto de restituição. A mãe deixa de ser apenas personagem privada para se tornar símbolo de resistência contra o racismo, o classismo e a misoginia que marcaram o período pós-colonial. Ao lado dessas imagens, a maquete de Casa n.º 17, construída a partir de uma simples caixa de cereais, funciona como relicário de uma infância precária. A pequena casa, acompanhada por fotografias tiradas antes da sua demolição, preserva um universo doméstico prestes a desaparecer. O que ali se guarda não é apenas um lugar físico, mas a coexistência de contradições: fé e sobrevivência, pobreza e imaginação, fragilidade e persistência.
Entre ruína e construção, memória e transformação, talvez seja essa coexistência que confere à exposição a sua força mais duradoura. Bunga não procura resolver as tensões que convoca, antes prefere habitá-las. As estruturas de cartão, destinadas à transformação e até à destruição pelo próprio artista, recusam a permanência que tradicionalmente associamos aos museus no seu todo. Em determinado momento, o bosque poderá ser cortado, rearranjado ou parcialmente desmoronado, como se a obra quisesse recordar que toda a arquitectura é transitória. Esse gesto aproxima-se de um pensamento ecológico e existencial: tudo cresce, tudo se altera, tudo acaba por regressar ao estado de matéria em circulação. Mas longe de qualquer pessimismo, a exposição propõe antes uma ética da adaptação. O que parece frágil pode revelar-se resistente; o que parece provisório pode tornar-se essencial. Ao convidar o visitante a percorrer este território instável, Carlos Bunga oferece uma metáfora delicada do nosso tempo: um mundo onde identidades, casas e paisagens se deslocam constantemente. “Habitar a contradição” não surge, assim, como um problema a resolver, mas como uma condição inevitável. E talvez também como a única forma possível de imaginar novas formas de vivermos juntos.
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