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quinta-feira, 30 de março de 2023

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: "Histórias de Todos os Dias. Paula Rego, Anos 70"


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EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Histórias de Todos os Dias. Paula Rego, anos 70”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Casa das Histórias Paula Rego
06 Nov 2022 > 21 Mai 2023


Os mais familiarizados com a obra de Paula Rego saberão que os anos 70 correspondem a um período de relativo apagamento. É um momento de crise pessoal e da carreira, ao qual não serão alheios a morte do pai, as dificuldades financeiras, geradas pela falência da empresa familiar e a falta de remuneração pelo seu trabalho como artista, para além da progressão do débil estado de saúde do seu marido, diagnosticado com esclerose múltipla. É na quinta da família, situada na Ericeira, que a artista encontra um sentimento de leveza que se revela proveitoso em termos criativos, apesar da sua insatisfação com a realidade artística e cultural do país que ignorava práticas mais experimentais. Apesar de tudo, Paula Rego continua a expor e em 1975 torna-se bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, lançando-se numa intensa pesquisa sobre o universo literário dos contos portugueses. O mercado e a crítica nacionais servem nesta altura de suporte à artista e, não sem surpresas, é esta a década que acabará por estar mais presente nas colecções nacionais, como pode constatar-se na mostra agora patente.

Durante os anos 1969 e 1970, Paula Rego dera início a um processo ilustrativo sobre as memórias infantis e familiares que tem subjacente uma análise psicológica das relações de “dominação” que assumem diversas formas. São as “histórias de todos os dias”, conjunto de trabalhos de desenho, pintura e escultura em tecido que exploram o imaginário infantil da artista, um ambiente de tensão, mas onde também acontecem as experiências mais marcantes da infância e adolescência: o nascimento, as brincadeiras com as outras crianças, as birras, as visitas e as relações familiares, e em que o domínio da figura paterna na sociedade patriarcal portuguesa é, por vezes, evidenciado. Também os acontecimentos políticos são alvo do olhar crítico e por vezes caricatural de Paula Rego, cujos desenhos revelam o seu desencanto face ao malogro da anunciada Primavera marcelista, às limitações à liberdade nas eleições de 1969 ou à persistência da Guerra Colonial.

Do ponto de vista técnico, generaliza-se o uso da tinta acrílica, o que lhe garante um processo de trabalho mais rápido e permite sobretudo explorar uma paleta mais diversificada e vívida de cores que a aproximam da cultura pop e do psicadelismo. As suas telas passam a ter como planos de fundo roxos, cor-de-rosa, amarelos, laranjas e verdes, dos quais se destacam figuras e outros elementos desenhados a caneta ou a tinta acrílica, de contornos bem definidos, recortados e colados, e que se introduzem metodicamente num complexo esquema compositivo. A multiplicidade referencial presente nas obras da década de 70 é também consequência de um sentido de apropriação que é estrutural na identidade artística de Paula Rego. Os livros lidos, as histórias ouvidas na infância, as notícias dos jornais, os filmes que vê no cinema e as exposições que visita durante as suas estadias em Londres são determinantes para a construção da sua linguagem figurativa singular. É precisamente pela diversidade das fontes de inspiração, próximas do seu quotidiano e através das quais constrói um território figurativo único e pessoal, que Rego reclama a sua autonomia perante os movimentos artísticos do seu tempo, uma especificidade que a sua obra manteria até ao final da sua carreira.

[Baseado no texto de Catarina Alfaro que acompanha a exposição]

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Contos Tradicionais e Contos de Fadas"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Contos Tradicionais e Contos de Fadas”,
de Paula Rego
Casa das Histórias Paula Rego, Cascais
08 Mai > 30 Set 2018


A pesquisa de Paula Rego sobre o universo literário dos contos populares portugueses inicia-se em 1974, ano em que começa a produzir uma série de ilustrações dedicadas ao tema. São histórias violentas e cruéis e nelas a artista reencontra não só as suas memórias de infância mas também o medo. Através da sua pintura, a artista procurava o confronto com personagens e episódios que a aterrorizavam, tal como declarara no início da sua carreira: “Pinto para dar uma face ao medo”. Em Abril de 1976 candidata-se a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, propondo-se "ilustrar mais prolificamente os contos tradicionais portugueses ou integrar esses contos eternos na nossa mitologia contemporânea e experiência pessoal através da pintura". Retoma então o experimentalismo formal baseado na composição automática, associando esta experiência criativa ao seu interesse pelo “inconsciente colectivo” de Jung que os próprios contos tradicionais revelam. Desde então, os contos tradicionais e os contos de fadas passam a constituir uma fonte fértil para o trabalho criativo da artista.

A sua abordagem aos contos, território onde o radical e o consensual se encontram onde menos se espera, é marcadamente autoral e muitas vezes auto-referencial e as histórias que se alinham numa estética do fantástico e que exploram as temáticas do encantamento, do amor e da sedução, do poder e da subjugação, do medo e do terror e, sobretudo, da transgressão, deixam de se submeter, nas suas obras, a essas referências exteriores numa delineada estratégia de insubmissão. Os contos, por sua vez, ganham um novo sentido ao articularem-se, na tela ou no papel, com elementos e histórias do universo pessoal da artista. A partir dos anos 1990, as histórias que as obras contam começam a ser encenadas, representadas e reinterpretadas no seu estúdio, um espaço de intimidade onde ganham vida própria através de modelos vivos que seguem as percepções da artista, enriquecendo-as sempre com as suas vivências e as suas próprias versões das histórias. São, por isso, verdadeiros tableaux vivants onde tudo é encenado ao pormenor.

Na sua livre interpretação destas histórias que integram o seu imaginário, Paula Rego reinscreve a voz das mulheres, dominante na tradição oral dos contos de fadas, e recupera também a natureza implacável das narrativas originais. Ela é simultaneamente personagem e narradora destas histórias intemporais, adaptando-as ao seu próprio tempo. Nesse seu contar pela pintura assistimos sempre a um processo de questionamento, mas também de revelação crua e, muitas vezes, brutal da natureza humana e das relações que os humanos estabelecem entre si, sejam elas familiares, amorosas ou políticas. Os contos de fadas servem-lhe para revelar e, sobretudo, desconstruir os modelos de socialização estabelecidos e, mais especificamente, os papéis atribuídos pela sociedade do seu tempo à mulher.


[Texto adaptado do Programa da Exposição, da autoria das curadoras Catarina Alfaro e Leonor de Oliveira]