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domingo, 3 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Analogias à Geometria e ao Orgânico”,



EXPOSIÇÃO: “Analogias à Geometria e ao Orgânico”,
de Cheila Peças
Museu do Vinho de Alcobaça - Adega dos Balseiros
17 Jul > 17 Ago 2025


“Sugo-te o conhecimento raivoso, impaciente. Questiono-me quem sou. Que parte de mim sou? Quando eu sou? Quando tu és? Vagueando entre raízes duras que me sugam a inocência, agradeço as palavras que lhes saem entornadas. Sou uma tela como todas as outras, o ar continua a derreter os passos que dou e faz-me inspirá-los para dentro do meu ser. Escuto os pelos arrepiados pelos sons que já não podem ouvir da mesma forma que antes. Tomo a decisão e uso-os como pincel, são agora o meu instrumento invisível”.

Imaginação, intuição, experimentação e aceitação são vectores maiores de “Analogias à Geometria e ao Orgânico”, exposição da artista plástica alcobacense Cheila Peças no âmbito do seu trabalho de doutoramento em Belas Artes. Multifacetada, entre o desenho, a pintura, a instalação, a fotografia e o vídeo, a mostra resulta do trabalho directo com utentes do Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça e das Cooperativas de Ensino, Reabilitação, Capacitação e Inclusão de Peniche e da Nazaré, focando-se na experiência do sair de si e abdicar da personalidade própria para viver a realidade do outro através da arte. Entre a inquietação de nos percebermos e percebermos o outro, e a surpresa das narrativas que, extravasando os limites da tela, servem de base à criação artística, é no instante e na persistência, na cumplicidade e na partilha, que se perfila o corpo de trabalho da artista.

Reflexo da importância do primário e elementar sobre o complexo e elaborado, a exposição pretende destacar as múltiplas dimensões do objecto artístico, secundarizando a sua organização racional e lógica, em favor da linguagem emocional e do poder da imaginação de quem observa. “Na sua individualidade, o objecto artístico, vivendo para si, surge das impressões que retemos do mundo”. Esta afirmação de Cheila Peças alcança uma significado profundo ao atentarmos no trabalho que a artista desenvolveu com pessoas no espetro do autismo, fazendo da partilha de experiências, em áreas como a percepção ou o reconhecimento, o ponto de partida de um percurso para a criação de algo que se dá às mais variadas interpretações. O resultado pode ser surpreendente, pelo que convoca de alterações profundas na forma como olhamos o mundo, mas também como nos olhamos a nós mesmos e, por conseguinte, olhamos o fazer artístico.

Experiência intuitiva que fala mais do sentimento do que da razão e abre novas perspectivas à compreensão do mundo e da vida, “Analogias à Geometria e ao Orgânico” é a viagem ao encontro do outro que antecede o reencontro da artista consigo mesma. As transformações pessoais sofridas nesta viagem acrescentam valor ao processo criativo e espoletam novas narrativas, mas é sobretudo a consciência que o espectador tem de si no momento de interpretação da obra que importa, num exercício que é também de auto-observação. É esse o desafio que Cheila Peças lança, num exercício que supõe entrega, atenção e tempo. Desdobramento sobre momentos artísticos e sobre processos construídos, “Analogias à Geometria e ao Orgânico” é a demonstração prática do poder comunicativo, interpretativo ou de reconhecimento do objecto artístico, na relação íntima entre a arte e a pessoa. Para ver até 17 de Agosto.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

LUGARES: Museu Nacional do Vinho de Alcobaça



LUGARES: Museu Nacional do Vinho de Alcobaça
Rua de Leiria - Olival Fechado, Alcobaça
Horários | Terça-feira a Domingo e Feriados: Visitas às 10:00, 11:00 e 12:00 / 14h00, 15h00, 16h00 e 17h00
Ingressos | Bilhete individual sem prova: € 4,00 (com prova, € 10,00 e € 12,00)


É em Alcobaça que se encontra a maior colecção nacional vitivinícola em contexto museológico. Instalado numa antiga adega, o Museu Nacional do Vinho de Alcobaça é o mais completo da temática do vinho e da vinha em Portugal, com um acervo que reflete quatro séculos de legado científico, histórico e industrial. Foi pelas mãos de José Eduardo Raposo de Magalhães que surgiu, em finais do século XIX, a adega do Olival Fechado, espaço hoje ocupado pelo Museu. Alcobacense ilustre, de índole generosa e de personalidade multifacetada, José Eduardo Raposo de Magalhães licenciou-se em Engenharia Militar, cursou Filosofia e Matemática em Coimbra, tendo também sido músico amador e regente, mas foi na sua dedicação à Agricultura que deu alto renome à sua terra. De facto, responsável maior pela fama e desenvolvimento da vitivinicultura de Alcobaça, José Eduardo Raposo de Magalhães aplicou, na construção da sua Adega, a tecnologia mais avançada do seu tempo, patente ainda hoje na qualidade dos materiais, na racionalidade dos espaços e nas condições de higiene preconizadas.

Em 1948, a Junta Nacional do Vinho, organismo corporativo e de coordenação económica, adquiriu aos Herdeiros de José Eduardo Raposo de Magalhães, a referida adega e terrenos adjacentes, passando aí a funcionar a Adega Cooperativa e os Armazéns da Junta, devidamente modernizados e ampliados. Em 1968, decorrente do encerramento de alguns dos Armazéns da Junta Nacional do Vinho um pouco por todo o território, foi dado início à recolha de material vinário disperso nas suas várias Delegações. Exercendo, na época, funções de Delegado da Junta em Leiria, Manuel Augusto Paixão Marques, pessoa de grande sensibilidade para a conservação patrimonial, cedo se interessou pelo espólio que se adensava e que, por razões logísticas, ia sendo reunido em Alcobaça. Em 1976, com a passagem da Adega Cooperativa para novas instalações e correspondente desactivação das adegas e dos depósitos, deu início a uma colecção única e preciosa, ciente do valor histórico, científico e etnográfico de peças que cobrem um arco temporal do século XVII ao advento do século XXI.

Distribuído por cinco espaços distintos - Adega dos Balseiros, Adega dos Depósitos, Adega dos Tonéis, Taberna e Jardim de Baco -, o espólio do Museu conta com um importante acervo com mais de dez mil peças móveis, preenchendo um universo eclético cujas tipologias contemplam a enologia, a etnologia, a tecnologia tradicional, a arqueologia industrial e as artes gráficas, plásticas e decorativas. O espólio reflecte ainda uma dimensão nacional, única no País, que reporta à memória da antiga Junta Nacional do Vinho, com destaque para os magníficos e elucidativos quadros informativos e estatísticos datados do seu período de afirmação, nas décadas de 1950 e 1960. Ao olhar do visitante abre-se um vasto conjunto integrado de peças de enorme valor e interesse, contextualizando a viticultura e a vinicultura em diferentes momentos históricos, assim como as industrias correlativas - tanoaria, engarrafamento e vidro de embalagem -, o armazenamento, a distribuição ou o consumo do vinho. Sujeito a visita guiada, o Museu é visitável de terça-feira a domingo, sendo aconselhável marcação prévia.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

CONCERTO: “Le Coup de Majesté - Músicas da época do jovem Luís XIV” | Le Poème Harmonique



CONCERTO: “Le Coup de Majesté - Músicas da época do jovem Luís XIV”
Le Poème Harmonique
Direcção musical | Vincent Dumestre
Com | Éva Zaïcik (mezzo-soprano), Camille Aubret e Louise Ayrton (violinos), Lucas Peres (viola da gamba), Simon Guidicelli (violone), Violaine Cochard (órgão e cravo), Vincent Dumestre (teorba)
Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça
Sacristia Manuelina do Mosteiro de Alcobaça
20 Jul 2025 | dom | 18:00


Estamos no Palácio do Louvre, no segundo quartel do século XVII. Aqui está situada a corte de França - Versalhes não passava, então, de uma aldeia - e Luis XIV acaba de ser coroado rei, iniciando um período de 72 anos correspondente àquele que viria a ser o mais longo reinado da História. Ali, entre o murmúrio do Sena e o ruído dos subúrbios, a vida cultural centra-se no canto e na dança, na pintura e no teatro, levada com desvelo à presença de um menino que não tem sequer cinco anos e a quem tudo fascina. Fascínio que se estende aos aposentos, onde as amas o mimam com histórias de encantar, ou às cozinhas do Palácio de onde saem cantigas, trazidas da rua por padeiros e cozinheiros que, entre patés e perdizes, dançam uma “bourrée” ou tocam pandeireta. Entretanto, em espaços privados, a música barroca encanta o pequeno rei e os membros da corte mais próximos. Foi ao encontro deste quotidiano refinado e requintado, dominado de forma muito particular pela música, que o agrupamento francês Le Poème Harmonique se apresentou em Alcobaça, disposto a recuar no tempo e a oferecer aos presentes uma proposta de viagem pelos ambientes da corte parisiense nos primórdios do reinado de Luis XIV.

Agora o tempo é outro e o espaço onde nos encontramos também. É na Sacristia Manuelina do Mosteiro de Alcobaça que os músicos que integram o Le Poème Harmonique se apresentam ao público, para um concerto que fecha um fim de semana extraordinário, quiçá o mais valioso da programação deste ano do Cistermúsica - Festival de Música de Alcobaça. Jóia arquitectónica, com um conjunto precioso de elementos barrocos e o seu inigualável portal manuelino (recuperado do catastrófico terramoto de 1755), a Sacristia mostrou-se o espaço perfeito para este verdadeiro “golpe de majestade”, envolvendo os presentes no espírito da época e predispondo à escuta atenta de um conjunto de peças que começou em Jean-Baptiste Lully e terminou em… Serge Gainsbourg. Com Vincent Dumestre na teorba e direcção musical, o concerto dividiu-se em duas partes, a primeira voltada para os compositores franceses e para uma fase tardia da juventude de Luis XIV. Foi então possível escutar um conjunto de peças de Michel-Richard de Lalande, Marc-Antoine Charpentier e Étienne Moulinié, para além do já referido Lully e de dois autores anónimos, que tiveram a ligá-las o tom contrastante entre a riqueza e a profusão de elementos tonais da música barroca e a singeleza das ilustrações campestres e dos poemas feitos de graça e leveza.

Com o foco nos compositores italianos da corte, muito por influência do Cardeal Mazarino, primeiro-ministro de França entre 1642 e 1661, recuamos ligeiramente à meninice do rei, para escutarmos Giovanni Battista Buonamente, Marco Uccellini e, sobretudo, Francesco Cavalli, em composições mais densas e complexas que as anteriores, com um carácter marcadamente operático. Cabe aqui falar da mezzo-soprano Éva Zaïcik, da força e harmonia de uma voz única, da sua enorme teatralidade, expressas desde o início do concerto mas que, nesta segunda metade, adquiriram um cunho sedutor, de verdadeiro êxtase. De uma enorme versatilidade, capaz de assumir com a mesma intensidade uma cena do mais puro lirismo ou uma passagem de extrema violência, Zaïcik impressionou pelos seus graves profundos, timbre radiante, sensibilidade inexcedível e entrega absoluta ao elemento cénico. Sem demérito para com os restantes elementos do agrupamento, todos eles irrepreensíveis na interpretação dos mais variados instrumentos, salientaria ainda a violinista Louise Ayrton, um jovem talento a seguir com atenção. O “encore” trouxe-nos o “Invicti, Bellate”, desse expoente máximo do barroco tardio que foi Antonio Vivaldi e, enfim, a enorme surpresa de escutar “La Javanaise”, de Gainsbourg, com instrumentos de outra época e a preciosa voz de uma cantora lírica, como que a fechar um ciclo (ou a dizer que isto anda tudo ligado). Um concerto memorável, o melhor do ano até à data.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

CONCERTO: "Redescobrindo Palestrina" | La Grande Chapelle



CONCERTO: “Redescobrindo Palestrina”
La Grande Chapelle
Direcção musical | Albert Recasens
Com | Raquel Mendes e Axelle Bernage (sopranos), David Feldman e Marco van Baaren (altos), Jeremie Coleau e Joan Francesc Folqué (tenores), Pieter Stas e Guillaume Orly (baixos), Marta Vicente (violone) e Jorge López Escribano (órgão)
Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça
Salão da Biblioteca do Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel
19 Jul 2025 | sab | 21:30


Há mais de três décadas a ligar património, música e comunidade, o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça é a demonstração viva do valor e interesse dos chamados “pequenos festivais”, da sua capacidade de se agigantarem e reflectirem a inegável dimensão universal da música, espelhada não só na qualidade e diversidade dos agrupamentos e artistas envolvidos, mas também no contraste de estilos que contribuem para a riqueza da sua programação. Ancorado na música erudita, o Festival deste ano tinha no agrupamento espanhol La Grande Chapelle, sob a direcção do maestro Albert Recasens, um dos seus maiores trunfos e as expectativas não saíram goradas. O numeroso público que encheu o belíssimo Salão da Biblioteca do Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel foi brindado com uma noite de redescoberta desse “mestre moderno” que foi Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525 – 1594), um prolífico autor de missas, hinos e motetos para a Igreja Católica e considerado hoje o mais importante compositor de música sacra do século XVI.

No ano em que se celebra o 500.º aniversário do nascimento de Palestrina, escutar a sua obra é recuar aos finais do Renascimento enquanto período áureo da música religiosa um pouco por toda a Europa e mergulhar na enorme revolução vivida no seio da Igreja, com o Concílio de Trento a afirmar-se, consistente e firme, como resposta à Reforma Protestante. Sobretudo, é valorizar o “exercício de diplomacia” de que se revestiu a associação da música de Palestrina com os princípios da retórica tridentina, é perceber a ênfase colocada na oratória sem que os princípios da harmonia e do ritmo saíssem beliscados, é tomar consciência da importância do conteúdo afectivo e dramático das peças, da sua inteligibilidade, ao encontro de uma resposta mais emocional no ouvinte. Mostrando uma consciência plena das novas tendências da música sacra no final do século XVI, Palestrina produziu um corpo considerável de música policoral, com muitas das suas composições a permanecerem até hoje praticamente desconhecidas do público. Foi sobre esse repertório escondido que La Grande Chapelle se concentrou, trazendo até Alcobaça um conjunto de peças verdadeiramente preciosas.

Demonstração plena da riqueza da polifonia renascentista, daquilo que representa, de como soa e se sente, da sua intensidade e beleza, o momento proporcionado pelo agrupamento espanhol colheu os frutos da sua demanda: proporcionar uma viagem de elevação e espiritualidade através da música do compositor romano. Face aos desafios musicais e expressivos das peças, o coro mostrou-se imaculadamente equilibrado, as vozes envoltas numa harmonia luminosa que arrastou o público a lugares fortemente introspectivos e de reflexão. O comedimento da linguagem musical de Palestrina viu-se compensado pela intensidade emocional das linhas vocais. Salmos, responsórios, antífonas, motetes, sequências e ofertórios abriram espaço nas mentes do público, ao encontro de momentos de verdadeiro júbilo. Ninguém ficou indiferente à expressividade, fulgor e virtuosismo da soprano bracarense Raquel Mendes, cuja voz límpida arrebatou o público em peças exigentes como “O bone Jesu”, “Crucem sanctam subiit” ou o excepcional “Regina coeli”, que o grupo repetiu num “encore” mais do que reclamado. Num espaço magnífico, um concerto que abriu as portas do céu.

terça-feira, 22 de julho de 2025

LUGARES: Mosteiro de Santa Maria de Coz





LUGARES: Mosteiro de Santa Maria de Coz
Rua de Santa Rita, Coz - Alcobaça
Horários | De terça a sexta, das 09h30 às 12h30 e das 14h00 às 18h00; sábado, das 14h00 às 18h00
Ingressos | Entrada gratuita


A dez quilómetros de Alcobaça situa-se Coz, uma das antigas povoações dos Coutos de Alcobaça, rodeada de férteis campos agrícolas e de antigas florestas. Aqui ganhou forma, no século XIII, uma comunidade de religiosas cisterciense, com o consentimento da Abadia de Alcobaça. No século XVI, o Mosteiro de Santa Maria de Coz tornou-se num dos mais ricos mosteiros femininos desta ordem, em Portugal. Com o seu esplendor artístico barroco, a igreja testemunha a riqueza dessa comunidade. Na segunda metade do século XVII e no século XVIII, o Mosteiro passou por um processo de profunda renovação da qual sobrevive o templo com as suas preciosas produções artísticas. Desmantelado e com parte do seu espólio destruído, no contexto das políticas liberais que levaram à extinção das Ordens Religiosas por decreto de 1834, o Mosteiro de Santa Maria de Coz viria a sofrer obras de restauro e a receber a classificação de Imóvel de Interesse Público em 1946. Em 2021, juntamente com o seu antigo dormitório e restantes dependências, o Mosteiro foi decretado oficialmente como Monumento Nacional. Integra, desde 2016, a Carta Europeia de Abadias e Sítios Cistercienses, encontrando-se aberto ao público desde essa altura.

Com Eurico Leonardo por anfitrião - as visitas são guiadas e é aconselhável garanti-las com antecedência -, os elementos de interesse vão surgindo aos nossos olhos, neles se destacando as fachadas simples e austeras da Igreja vazadas por janelas rectangulares e óculo elíptico, bem como a sua nave única, coberta por tecto de madeira de berço com caixotões pintados com emblemática. No interior da Igreja, as paredes são dinamizadas pelo emprego de azulejo de padrão e figurativo, recaindo a nossa atenção nos elementos que distinguem aqueles que são de oficina holandesa e portuguesa. De talha dourada, o riquíssimo altar-mor é um dos primeiros exemplares desta técnica em Portugal e nele avulta uma composição da sagrada família, em tamanho natural, e na qual Jesus surge com uma idade “entre os 3 e os 4 anos”, algo de verdadeiramente incomum. Eurico cita especialistas que especulam tratar-se de uma representação simbólica do regresso do Egipto, apoiada pelos elementos vegetais (palmeiras) que decoram o fundo da cena. Numa das paredes laterais avulta uma das mais preciosas jóias do templo, “O Purgatório”, obra de Josefa de Óbidos que resulta numa composição riquíssima, onde sobressaem os anjos (auto-retratos da pintora?) e, entre as muitas almas, a desassombrada representação de dois clérigos.

Uma grade de clausura em talha dourada separa a zona reservada ao culto daquela conhecida por coro das monjas. É nele que podemos apreciar o cadeiral onde as monjas passavam inúmeras horas por dia e ainda um riquíssimo portal manuelino, de arco polilobado, com decoração de grotescos, motivos vegetalistas e heráldica. A propósito deste espaço, Eurico Leonardo contou uma curiosíssima história que tem a ver com a “eleição democrática” da abadessa, a qual era sufragada entre três candidatas, depois de uma triagem inicial. No dia da eleição, eram entregues a cada monja três favas (duas pretas e uma branca), sendo que a fava branca deveria ser colocada na urna, devidamente identificada, da favorita. Reza a história que a mais votada na triagem foi sempre a eleita na votação final, levando a que as monjas especulassem sobre a necessidade deste último acto. Afinal, eram “favas contadas”, um dito que sobreviveu ao passar dos séculos e chegou aos nossos dias. Entre a Igreja e o coro das monjas, uma passagem pela Sacristia permite abordar o precioso conjunto azulejar com passagens da vida de S. Bernardo de Claraval, alguns frescos muito deteriorados mas ainda com alguns elementos iconográficos de grande valor e, naturalmente, esse doce conventual único que é o pão de ló, e que, sendo de Alfeizerão, afinal é de Coz.

terça-feira, 14 de junho de 2022

LUGARES: Mosteiro de Alcobaça


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LUGARES: Mosteiro de Alcobaça
Horários | Das 09h00 às 18h00 (de outubro a março) e das 09h00 às 19h00 (abril a setembro)
Ingresso | Bilhete individual € 6,00 (entrada gratuita aos domingos e feriados para todos os cidadãos residentes em território nacional)


Quem estiver por Alcobaça facilmente perceberá que todos os caminhos vão dar ao Mosteiro. Assim é pelo menos desde 1153, altura em que D. Afonso Henriques, na sequência da conquista aos mouros do importante Castelo de Santarém, cumpriu a promessa feita seis anos antes, doando e coutando o território de Alcobaça a Bernardo de Claraval. O Abade francês, canonizado em 1174 e proclamado Doutor da Igreja, viria a ser peça importante no processo de reconhecimento da independência de Portugal pelo Papa, sendo particularmente significativo um grupo de figuras de barro em tamanho real que data do século XVIII, exposto na Sala dos Reis do Mosteiro, o qual representa a coroação imaginária de D. Afonso Henriques por Bernardo de Claraval e pelo Papa Inocêncio II. Poderá ser este o ponto de partida de uma visita que promete ser inesquecível, mas se quiser seguir o meu conselho comece pela Igreja. Já agora, se quiser seguir outro conselho, procure chegar o mais cedo possível. Desta forma garantirá uma visita tranquila, longe das hordas de turistas que, individualmente ou em grupo, começam a afluir ao templo lá pelo meio da manhã.

A Igreja é constituída por uma nave central, duas naves laterais e um transepto, criando a imagem de uma cruz. Todas as naves têm cerca de vinte metros de altura, sendo a capela-mor limitada a oriente por um deambulatório, ou charola, com nove capelas radiais. As outras quatro capelas vão dar, pelos dois lados, ao transepto. A arquitectura da igreja de Alcobaça é um reflexo da regra beneditina na procura da modéstia, da humildade, do isolamento do mundo e do serviço a Deus. Os Cistercienses partilhavam estas ideias, ornamentando e construindo a estrutura das suas igrejas de forma simples e poupada. Apesar da sua enorme dimensão, o edifício apenas sobressai através dos seus elementos de estrutura necessárias que se dirigem ao céu. A fachada principal do Mosteiro, a ocidente, foi alterada entre 1702 e 1725 com elementos do estilo barroco. A própria igreja adquiriu dois campanários barrocos e possui uma fachada de 43 metros, ornamentada por várias estátuas. Da fachada antiga apenas restam o portal gótico e a rosácea.

Uma visita à Igreja não ficaria completa sem passar pelo Panteão Régio e, em particular, pelos túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro. Situados em cada lado do transepto, estes dois túmulos conferem, ainda hoje, um grande significado e esplendor à igreja. As cenas aí representadas ilustram episódios da História de Portugal, são de origem bíblica ou recorrem simplesmente a fábulas. Particularmente visíveis são os danos sofridos durante a Invasão Francesa de 1810, altura em que os soldados profanaram os corpos de D. Pedro e de D. Inês, cujos elementos foram posteriormente recolhidos pelos monges e repostos nos túmulos antes de serem novamente selados. Hoje, os túmulos são o destino de muitos apaixonados, que os visitam no dia do seu casamento, para fazerem juras de amor eterno e de fidelidade defronte aos dois túmulos. Já o Panteão Régio acolhe os túmulos dos reis D. Afonso II e D. Afonso III, diante dos quais, numa sala lateral, se posicionam outros túmulos, nos quais se encontram D. Beatriz, mulher de D. Afonso III, e três dos seus filhos. Um outro sarcófago pertence a D. Urraca, a primeira mulher de D. Afonso II.

Deixando a Igreja, uma porta no seu interior, do lado esquerdo da entrada, conduz-nos à Sala dos Reis, correspondente à antiga capela-salão construída no séc. XVIII. Este espaço é assim denominado por nele se exporem esculturas, em terracota policromada, representando os reis de Portugal, de D. Afonso Henriques a D. José. O conjunto é completado, como já se disse, com uma alegoria à coroação de D. Afonso Henriques pelo Papa Alexandre III e por São Bernardo. A obra é atribuída aos monges-barristas do Mosteiro. Nas paredes, painéis setecentistas de azulejo narram a lenda da fundação monástica. Deixando esta sala, abre-se à frente do visitante o verdejante espaço do Claustro de D. Dinis, também conhecido como Claustro do Silêncio. Por ordem do rei D. Manuel I, no início do século XVI, foi adicionado um segundo andar, o sobreclaustro, ao qual se acede por uma escada em caracol na parede, interligando também a cozinha ao dormitório. O conjunto é composto por colunas ricamente decoradas, uma fiada de gárgulas em cada um dos lados do claustro e ainda uma capela em honra da Virgem Maria, correspondendo, assim, a uma longa tradição nos mosteiros cistercienses.

Porque a descrição do Mosteiro de Alcobaça não se esgota neste artigo, refiro apenas mais quatro espaços de visita absolutamente obrigatória. A Sala do Capítulo servia às assembleias dos monges e era, depois da Igreja, a sala mais importante do Mosteiro. O seu nome deve-se às leituras que eram feitas a partir dos capítulos da Regra beneditina. Acessível através de uma porta que se encontra ao lado da escada para o Dormitório, localiza-se a Sala dos Monges e que servia para o alojamento dos noviços que não participavam na vida normal dos monges professos. Quando, no início do século XVI, o dormitório dos noviços foi transferido para o segundo andar do dormitório dos monges, a Sala dos Monges transformou-se numa sala de trabalho e armazém de mercadorias. Finalmente a Cozinha e o Refeitório, a primeira das quais impressiona pelas dimensões da lareira, com 25 metros de altura. Em 1762, a cozinha recebeu os azulejos nas paredes e nos tectos que ainda hoje existem. Quanto ao Refeitório, situa-se ao lado da Cozinha e é constituído por uma sala com três naves, impressionando pelas suas proporções harmónicas. Do lado oeste, uma escada de pedra conduz ao púlpito do leitor, que lia textos espirituais durante as refeições.