Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta “Interseções". Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta “Interseções". Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Interseções" | Júlio-Saúl Dias



EXPOSIÇÃO: “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”,
de Júlio-Saúl Dias
Curadoria | Bernardo Pinto de Almeida, Laura Garrido e Caetano
Centro de Memória de Vila do Conde
21 Mar > 27 Set 2026


Há exposições que confirmam as nossas expectativas e outras que as desmentem pelas melhores razões, ao descobrirmos nelas algo de mais estimulante. Está neste último caso “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”, patente no Centro de Memória de Vila do Conde. Quem, como eu, ali entrar à procura do pintor Julio, e sobretudo do artista de recorte mais assumidamente surrealista, começará por estranhar a presença dominante do desenho. São muitos os desenhos, frequentemente organizados em séries, por vezes insistindo sobre uma mesma figura, um mesmo gesto ou uma mesma situação, como se o artista necessitasse de voltar sucessivamente ao papel para fixar aquilo que a pintura, pela sua própria natureza, tornaria mais definitivo. Ao longo de cento e sessenta e três obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos, publicações e objectos do atelier, “Interseções” revela um Julio menos compartimentado do que a memória que dele guardamos. A mostra, com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano, não se limita a reunir peças de diferentes períodos: propõe uma leitura capaz de fazer perceber como, em mais de cinco décadas de actividade, a pintura e o desenho foram mantendo entre si uma relação de permanente contaminação.

A surpresa maior está, por isso, em perceber que aqueles desenhos que à partida poderiam parecer estudos, apontamentos ou exercícios de uma outra ordem são, afinal, uma espécie de território onde as várias dimensões da criação de Julio se encontram. A linha pode sugerir o movimento de um corpo, a cadência de um gesto, a repetição de uma frase musical ou a atmosfera de um poema. Há uma evidente vocação coreográfica em muitas dessas figuras, uma atenção ao corpo e à sua transformação que aproxima o desenho da dança; há também uma dimensão rítmica, quase musical, na sucessão das formas e na maneira como o artista explora a repetição, a variação e o silêncio. E há a literatura, não apenas porque Saúl Dias foi também poeta, mas porque palavra e imagem parecem nascer, em diversos momentos, de uma mesma necessidade expressiva. A organização da exposição em quatro núcleos — pintura e desenho, dança, poesia e música — evita uma leitura cronológica e favorece justamente esse trânsito entre linguagens. A “Revista de Baltar”, realizada em 1914 com José Régio, a correspondência e as publicações poéticas, o óleo de 1918 que agora volta a ser mostrado e até o bandolim do século XIX, exposto pela primeira vez, funcionam menos como curiosidades do que como peças de um mesmo universo. É nesse cruzamento que Julio ganha uma outra espessura: a do artista que não cabe inteiramente numa disciplina e cuja obra parece pedir que se escute o que se vê.

Nisto reside a grande virtude de “Interseções”: devolver a Julio a complexidade que a própria designação de pintor, por mais justa que seja, acaba por ocultar. A exposição encontra na Galeria Julio, instalada no Centro de Memória, um lugar particularmente feliz para essa revisitação. A cidade está profundamente ligada à preservação e à divulgação da sua obra, e as salas que lhe são dedicadas constituem não apenas um espaço de memória, mas uma presença cultural que permite olhar para Julio com continuidade e proximidade. “Interseções” aproveita essa relação para propor um percurso que não pretende encerrar a obra numa explicação única. Pelo contrário: deixa que as linguagens se aproximem, se contaminem e, por vezes, se confundam. O visitante que, como aconteceu comigo, chega à exposição em busca da pintura, sai com a sensação de ter descoberto várias portas de entrada para ela. Porque os desenhos não são aqui um parêntesis nem uma margem da obra pictórica: são a sua maior chave. Na simplicidade de uma linha ou na complexidade de uma composição, no corpo que parece dançar, no ritmo que a imagem sugere ou na palavra que permanece próxima, reconhece-se afinal o mesmo artista. Um artista para quem criar foi, acima de tudo, uma forma de estabelecer relações entre o visível e o imaginado, entre a mão e o pensamento. Entre a pintura, o desenho, a dança, a música e a poesia.