CINEMA: “NAZA”
Realização | Yuval Abraham, Rachel Szor
Argumento | Yuval Abraham, Rachel Szor
Fotografia | Rachel Szor
Montagem | Yuval Abraham, Rachel Szor
Interpretação | Yuval Abraham
Produção | Harry Davies, Lindsay Poulton, James Wilson
Reino Unido, Estados Unidos | 2026 | Documentário | 80 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 5
12 Out 2026 | seg | 14:25
Há uma legenda em “Naza”, de Yuval Abraham e Rachel Szor, que condensa a perturbadora economia moral do filme e nos vem lembrar que Gaza e Telavive distam escassos sessenta quilómetros entre si, pela linha da costa. A proximidade geográfica torna-se, porém, a medida de uma distância muito mais funda, a que separa quem morre de quem decide a morte, quem vê a destruição da segurança doméstica de quem a sofre, quem carrega no botão de quem morre esmagado sob os escombros. Partindo dos testemunhos de vinte e quatro antigos membros dos serviços de informações e das forças armadas israelitas, a dupla de realizadores constrói um documentário que dispensa a exibição directa do horror para nos obrigar a imaginá-lo. Não vemos os rostos dos entrevistados, obscurecidos ou digitalmente alterados; ouvimos, porém, as palavras de quem participou na engrenagem que tornou Gaza num território de devastação e horror. O dispositivo formal é austero, quase glacial, e a sua eficácia reside nessa contenção. “NAZA” não procura a comoção fácil nem se refugia na espectacularidade da ruína: expõe, antes, a linguagem, os procedimentos e as justificações através dos quais a morte de milhares de pessoas pode ser integrada numa rotina administrativa. O que começa por parecer uma investigação jornalística converte-se numa anatomia do poder contemporâneo, onde a distância deixou de ser uma questão geográfica, para passar a assumir uma tecnologia de irresponsabilidade, desumanização e imoralidade.
O título do documentário remete para a abreviatura hebraica de “Nezek Agavi”, expressão correspondente a “danos colaterais”, transformada, na lógica operacional descrita pelos entrevistados, numa unidade de cálculo das mortes civis consideradas aceitáveis para atingir determinado alvo. A violência adquire, deste modo, a aparência de uma equação: cada vida reduz-se a uma variável, cada edifício a uma coordenada, cada família a uma margem de erro. Os sistemas de vigilância e a inteligência artificial, nomeadamente através do programa Lavender, surgem como instrumentos de uma guerra em que a decisão humana se esconde atrás da autoridade aparente dos dados. Mas a máquina não absolve quem a concebe, alimenta ou utiliza; pelo contrário, torna mais urgente a pergunta pela responsabilidade. Quando um entrevistado afirma que desempenhava apenas uma função técnica, ou que outra pessoa teria executado a mesma tarefa, reconhecemos a velha gramática da obediência cega, agora actualizada pelo vocabulário asséptico da gestão algorítmica. A banalidade do mal, para convocar Hannah Arendt, não significa aqui ausência de inteligência ou de competência, mas a possibilidade de ambas operarem sem reflexão moral. Há algo de particularmente aterrador na naturalidade com que estes homens descrevem procedimentos susceptíveis de destruir famílias inteiras. A linguagem militar não se limita a ocultar a violência. Organiza a sua percepção, distribui responsabilidades até quase as fazer desaparecer e converte a morte de civis numa consequência previsível, logo administrável. É necessário lembrar, porém, que o algoritmo não mata sozinho e que são seres humanos que lhe atribuem autoridade para matar.
A opção de Yuval Abraham e Rachel Szor de filmar nos telhados nocturnos de Telavive, intercalando os depoimentos com movimentos de câmara pelas fachadas e janelas de apartamentos, introduz uma segunda dimensão crítica. Enquanto em Gaza se acumulam os escombros, a vida na cidade israelita parece prosseguir entre televisores ligados, rotinas familiares e interiores protegidos. A montagem não estabelece uma oposição simplista entre dois mundos estanques. Revela, antes, a coexistência entre a normalidade de uns e a destruição de outros, separados por uma distância que é simultaneamente física, política e moral. A evocação de “A Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer, produtor executivo de “NAZA”, impõe-se: também aqui o horror se torna mais insuportável quando percebemos a facilidade com que pode permanecer fora de campo, sem interromper os gestos quotidianos. Todavia, a sobriedade do dispositivo comporta um risco. A sucessão de testemunhos, por vezes quase indiferentes à gravidade do que relatam, pode produzir uma saturação em que o horror, repetido e sistematizado, perde parte da sua capacidade de nos atingir. E a concentração quase exclusiva nas vozes israelitas, embora politicamente deliberada, deixa os palestinianos sobretudo na condição de vítimas descritas por terceiros. Quando, perto do final, a câmara abandona os panoramas nocturnos e nos confronta com um pai palestiniano à procura dos filhos entre as ruínas, a irrupção dessa presença humana adquire uma força que o filme até aí parecia suster. Não se trata de exigir emoção como ornamento, mas de reconhecer que a denúncia da desumanização não pode prescindir da restituição da humanidade aos desumanizados.
É precisamente nesta tensão entre rigor investigativo e insuficiência afectiva que “Naza” encontra os seus limites e a sua importância. O filme não revela, por si só, uma realidade desconhecida: jornalistas palestinianos, investigadores e órgãos de comunicação independentes documentam há anos a ocupação, a destruição de Gaza e os mecanismos que sustentam a violência israelita, frequentemente pagando um preço extremo por esse trabalho. O que os realizadores acrescentam é a possibilidade de escutar, do interior da estrutura militar, testemunhos que comprometem não apenas executantes individuais, mas um sistema de decisão política, tecnológica e institucional. A reacção furiosa das autoridades israelitas, acompanhada de ameaças contra os realizadores e de tentativas de transformar a denúncia em traição, confirma a dimensão política do gesto cinematográfico. “NAZA” é mais convincente a expor o funcionamento do horror do que a imaginar as condições da sua superação; mais incisivo a desmontar a máquina do que a devolver espaço àqueles sobre quem ela opera. Esta limitação, porém, não anula a urgência do filme. Num tempo em que o genocídio em Gaza continua a exigir denúncia, responsabilização e justiça, a distância entre Telavive e Gaza deixa de poder servir de álibi. O cinema, aqui, não substitui a acção nem absolve o espectador. Retira-lhe, isso sim, o conforto de alegar que não sabia.

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