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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Mais Alto” | Margarida Correia



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Mais Alto”,
de Margarida Correia
Curadoria | João Pinharanda
MAAT Central - Museu de Arte Arquitectura e Tecnologia
29 Abr > 05 Out 2026


“Mais Alto” é o título da exposição de Margarida Correia que pode ser vista no MAAT Central e é, também, o nome da revista da Força Aérea Portuguesa onde a artista encontrou, mais de meio século depois dos acontecimentos, pistas para identificar muitas das mulheres que protagonizaram esta história. A partir dessas referências, a investigadora, artista plástica e fotógrafa procurou as antigas enfermeiras paraquedistas e encontrou, nos seus álbuns fotográficos privados, grande parte das imagens que agora apresenta. O resultado é uma exposição que recupera uma memória simultaneamente pessoal e colectiva, centrada em mulheres que, durante a Guerra do Ultramar, escolheram um destino profissional inédito e aceitaram os riscos de uma missão que as levou às zonas de combate. Enfermeiras militares, mas também paraquedistas, estas mulheres prestavam assistência aos feridos, participavam nas evacuações e actuavam em condições de enorme exigência física e psicológica. A sua importância não se esgota, porém, na função assistencial: nos momentos mais dramáticos da guerra, representavam também a presença do cuidado, da confiança e da esperança junto dos militares feridos.

No cruzamento entre memória, história e identidade, constrói Margarida Correia “Mais Alto”. O seu método parte da fotografia como instrumento de investigação: consulta arquivos pessoais e institucionais, fala com as protagonistas, visita lugares, observa e regista os objectos que sobreviveram ao tempo e procura, em cada vestígio, a possibilidade de reconstruir uma história. As fotografias privadas, originalmente feitas para guardar momentos de uma vida, são retiradas do seu contexto íntimo e colocadas perante o olhar contemporâneo. Cada retrato e cada objecto ganha, assim, uma nova função, integrando pequenas fotobiografias que se cruzam e formam uma narrativa maior. O que emerge é a história de um grupo de mulheres que não apenas participou num conflito, mas também desafiou os códigos sociais do Estado Novo. Ao escolherem uma profissão militar e ao exporem os próprios corpos ao perigo, afastaram-se dos modelos de recato, casamento e maternidade que então definiam, em larga medida, o lugar esperado para as mulheres. “Mais Alto” devolve essas imagens ao presente e propõe uma leitura que é, simultaneamente, artística, histórica e sociológica.

Nascida em Lisboa, em 1972, cidade onde vive e trabalha, Margarida Correia licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e fez o mestrado em Fotografia na School of Visual Arts, em Nova Iorque. No seu percurso artístico, a fotografia funciona sobretudo como instrumento de pesquisa e não apenas como suporte tecnológico, servindo uma investigação persistente sobre memória, história, identidade e relações afectivas com os objectos. O seu trabalho foi apresentado em instituições e galerias em Portugal, nos Estados Unidos e no Canadá, tendo realizado exposições individuais, entre outras, na Fundação EDP, em Lisboa, no Museu de São Roque e no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga. Publicou ainda trabalhos como “Ofício” (2010), “New World Parkville” (2011) e “A Woman's Work” (2020). Em “Mais Alto”, essa experiência de investigação encontra uma matéria particularmente poderosa: fotografias que foram, um dia, testemunho de um presente e que hoje são documentos de um passado. Ao fazer regressar essas imagens ao espaço público, Margarida Correia não lhes restitui apenas visibilidade, transformando-as em matéria de reflexão sobre a guerra, a condição feminina e a própria forma como uma sociedade escolhe recordar.

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