“O Século de Gehry”, exposição comissariada por António Choupina, é mais uma jóia a ocupar a Ala Siza Vieira do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Trata-se de uma exposição que não se limita a percorrer a longa trajectória de um dos arquitectos maiores dos séculos XX e XXI, antes propõe uma reflexão sobre aquilo que a arquitectura ainda pode ser quando se recusa a transformar-se numa simples resposta técnica ou numa imagem consumível. Através de desenhos, maquetas, fotografias, filmes e objectos vários, a exposição devolve-nos um Frank Gehry menos próximo do ícone mediático e mais próximo do investigador inquieto que sempre foi. A sua importância histórica não reside apenas nas formas inesperadas que introduziu na paisagem urbana, mas na maneira como restituiu à arquitectura a capacidade de experimentar. Antes do titânio do Guggenheim de Bilbau ou das superfícies ondulantes do Walt Disney Concert Hall, percebemos uma atenção quase artesanal à matéria, ao fragmento e ao acaso. Gehry dizia interessar-se pela energia dos edifícios ainda em construção, pela sua rudeza e pelo seu carácter imediato. Essa afirmação contém, talvez, a chave de toda a sua obra: a arquitectura não como objecto acabado, mas como processo vivo, no qual a dúvida e a descoberta participam tanto quanto o rigor do projecto.
Desde a sua casa em Santa Mónica até aos grandes edifícios que marcam cidades de vários continentes, o arquitecto construiu uma linguagem singular a partir da tensão entre elementos aparentemente incompatíveis. A madeira, o cartão, o metal, o vidro ou o titânio nunca foram simples materiais de revestimento, mas meios para compreender novas possibilidades espaciais. Embora dialogue intensamente com a escultura, a sua arquitectura não é verdadeiramente escultórica. Uma escultura concentra o espaço à sua volta; Frank Gehry procura antes transformá-lo, alterando a luz, o movimento e a percepção de quem o percorre. O fragmento, nos seus projectos, não significa ruptura, mas a busca de uma nova unidade. No Guggenheim de Bilbau, as superfícies curvas e reflectoras não são um mero exercício formal: fazem do edifício uma presença em permanente mutação, dependendo da hora, da claridade do céu, da sensibilidade e apuro do olhar. No Walt Disney Concert Hall, como o próprio arquitecto explicou, cada elemento conserva a sua individualidade antes de participar numa composição colectiva. A arquitectura torna-se assim uma espécie de música construída, cuja harmonia nasce não da uniformidade, mas da relação entre os elementos que a distinguem.
Uma das ideias mais interessantes reveladas pela exposição é a distância entre a imagem pública de Gehry e a complexidade real do seu pensamento. Frequentemente associado ao fenómeno da “arquitectura-espectáculo”, Gehry foi, paradoxalmente, um arquitecto profundamente atento ao contexto. A afirmação de que era “um contextualista convicto” não pode ser entendida como mera defesa circunstancial, mas como uma convicção permanente: cada edifício nasce de uma relação específica com o lugar, a cultura e a memória que o envolve. É nesse ponto que o diálogo com Álvaro Siza, por exemplo, adquire particular significado. Apesar das diferenças formais evidentes, ambos partilham a recusa de uma arquitectura indiferente às circunstâncias. Se Siza procura revelar a continuidade escondida de um lugar, Gehry procura revelar as suas possibilidades latentes. O projecto não construído para o Parque Mayer, em Lisboa, surge na exposição como testemunho de uma relação afectiva com a cidade e de uma vontade de responder ao seu carácter singular. António Choupina compreende essa dimensão ao organizar uma exposição que não apresenta apenas obras acabadas, mas os caminhos, as hesitações e as colaborações que lhes deram origem.
Também por isso, “O Século de Gehry” ultrapassa a condição de homenagem e adquire uma dimensão crítica mais ampla. A exposição recorda-nos uma época em que a arquitectura ainda era entendida como uma forma de conhecimento, uma maneira de pensar o mundo através do espaço e da matéria. Hoje, quando tantos edifícios parecem submetidos à lógica da imagem imediata, da eficiência absoluta ou da repetição globalizada, a obra de Frank Gehry conserva uma pergunta essencial: poderá a arquitectura continuar a surpreender-nos? A sua resposta nunca foi teórica, mas construída. Está na luz que percorre as fachadas de Bilbau, no movimento aparente das superfícies de Düsseldorf, na delicadeza inesperada de uma estrutura metálica no coração das vinhas ou na capacidade de um edifício de transformar a experiência de uma cidade. Percebemos, então, que o verdadeiro legado de Frank Gehry não está nas formas que criou, mas na liberdade que defendeu: a liberdade de imaginar que, mais do que uma solução, um edifício pode ser uma descoberta. E é essa possibilidade - a de uma arquitectura ainda capaz de pensar, emocionar e interrogar o mundo - que permanece como a grande motivação para revisitar a sua obra.
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