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domingo, 26 de julho de 2026

CONCERTO: “Schubert” | Elisabeth Leonskaja



CONCERTO: “Schubert”
Com | Elisabeth Leonskaja (piano)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
24 Jul 2026 | sex | 21:30


Quando falamos de Franz Schubert, um dos nomes que imediatamente ocorre é o de Elisabeth Leonskaja, autêntica lenda viva do piano e cuja relação com o compositor austríaco ultrapassa a afinidade estética e se aproxima de uma verdadeira identificação artística. O recital integrado no Festival Internacional de Música de Espinho, que teve lugar na noite da passada sexta-feira, confirmou-o com a naturalidade de quem não pretende impor qualquer tipo de visão, antes deixar que a música revele a sua própria verdade. Discípula de uma tradição pianística centro-europeia que privilegia a arquitetura do discurso, a densidade do som e a rejeição de qualquer efeito superficial, Leonskaja construiu um Schubert simultaneamente íntimo e monumental, sem perder de vista um natural tom melancólico, como se de um discreto horizonte de luz se tratasse. O silêncio entre frases, o peso de cada modulação e a respiração das grandes linhas melódicas tornaram evidente uma maturidade interpretativa rara, fruto de décadas de convivência com este repertório. Num festival que continua a afirmar-se como um dos mais relevantes espaços do nosso país dedicados à música erudita, a presença de uma artista desta dimensão constituiu um momento de particular significado.

Obra das menos exploradas do repertório schubertiano, a Sonata em Si maior, D. 575, abriu o programa com uma elegância despojada, revelando um compositor muito jovem, mas já capaz de fazer conviver luminosidade clássica e inesperadas sombras harmónicas. Elisabeth Leonskaja evitou quaisquer leituras excessivamente galantes, preferindo sublinhar a fluidez do discurso e a permanente sensação de canto que atravessa toda a obra. Essa mesma capacidade de fazer respirar a melodia encontrou um notável contraponto na Wanderer-Fantasie, em Dó maior, D. 760, uma das páginas mais ousadas do compositor, onde avulta a convivência do impulso quase orquestral da escrita pianística com um inabalável rigor estrutural. A pianista enfrentou as exigências técnicas da obra sem qualquer ostentação, transformando o virtuosismo num instrumento expressivo e de uma rara organicidade. Impressionou sobretudo a clareza da polifonia, a construção orgânica dos diferentes episódios e a forma como a célebre transformação temática emergiu como percurso inevitável, conduzindo o ouvinte através de uma narrativa de permanente tensão interior.

Foi, contudo, na Sonata em Lá maior, D. 959, uma das derradeiras obras-primas de Schubert, que o recital atingiu a sua dimensão mais profunda. Leonskaja soube habitar esta música com uma serenidade que apenas os grandes intérpretes conseguem alcançar, compreendendo que o drama schubertiano nasce menos do contraste do que da lenta transformação da matéria musical. O célebre Andantino revelou-se como o verdadeiro centro emocional da interpretação, fazendo crescer a inquietação sem perder a contenção, até à explosão quase visionária da secção central, para depois regressar a uma paz apenas aparente. Nos andamentos extremos, a pianista conciliou amplitude formal e espontaneidade, preservando a continuidade do pensamento musical mesmo nos momentos de maior expansão, como no Scherzo (Allegro vivace). Retomado no encore, o Andantino foi saboreado com devoção por um público que soube mostrar-se grato por momentos tão elevados e de enorme beleza. No final, ficou a sensação de termos escutado um Schubert profundamente humano, despojado de romantismos estéreis e restituído à sua essência: um compositor para quem não há beleza sem fragilidade, nem esperança sem a consciência de uma inexorável finitude.

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