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terça-feira, 14 de julho de 2026

CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade



CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade
Com | Daniel Pereira Cristo (voz, cavaquinho), Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão), Carolina Gomes (percussões) e elementos dos coros CásterAntiqua, Canto Décimo e Suspiro e do grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar – Palco Verde
10 Jun 2026 | sex | 19:00


Há concertos que se esgotam nos seus pressupostos e facilmente se apagam da memória. E depois há aqueles que permanecem, pela forma como se transformam em lugar de presença, dádiva e partilha. Está neste último caso o concerto de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, não apenas pela qualidade da execução ou pelo simbolismo do repertório, mas porque conseguiu suspender, ainda que por instantes, a ilusão de que a cultura é um território de consumo, devolvendo-a à sua condição primordial enquanto lugar de pensamento, encontro e afecto. Entre todas as propostas que deram forma ao primeiro dia do FESTA - Sons da Lusofonia, e sem desprimor para com as demais, esta é aquela que quero destacar. Sem procurar impressionar pela dimensão da produção ou pela exuberância cénica, o concerto optou pelo caminho menos óbvio e, por isso mesmo, mais raro: o de fazer da música um espaço de pertença, no qual tradição, criação e comunidade encontram espaço numa mesma vivência. Num festival que, entre todos os seus pressupostos, faz da música que toca, [da] palavra que voa, [do] tempo que vive, [da] diversidade que se encontra a sua maior razão de ser, dificilmente imaginaríamos tradução mais consequente dessa autêntica carta de intenções.

Foi significativo que tudo tivesse começado muito antes de qualquer ideia de espectáculo. Saída do universo das Cantigas de Santa Maria, “Santa Maria, Strela do Dia” não emergiu como simples evocação do cancioneiro medieval, mas como afirmação de uma linhagem. Através dela, a tradição mostrou-se como raiz viva de uma música que, transformando-se incessantemente, continua a reconhecer-se na mesma seiva. Esta subtil ligação ao Festival de Música Antiga de Ovar fez, por isso, todo o sentido, como se ambos os festivais partilhassem, num mesmo arco temporal, oito séculos de criação musical e de diálogo entre géneros. A passagem para os cantares populares extraídos da banda sonora do filme “Mudar de Vida”, do realizador Paulo Rocha, aconteceu sem rupturas, como se Ovar e o Furadouro, os pescadores, as vozes religiosas, os cantos de trabalho e as melodias festivas fossem apenas diferentes rostos de uma mesma memória colectiva. Abraço caloroso à nossa terra e às nossas gentes, “Bendito”, “Encadeia”, “Aperta, Amor”, “Vareira” ou “Malhão” puderam ser escutados como matéria ainda habitada, capaz de reconhecer nas vozes de hoje a continuidade das vozes de ontem.

Quando Daniel Pereira Cristo assumiu plenamente a condução do concerto, acompanhado por Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão) e Carolina Gomes (percussões), tornou-se claro que a comunidade nunca deixaria de ocupar o centro da narrativa. Mais polido ou mais regateiro, o coro foi a imagem visível de uma ideia de criação onde o individual encontra sentido na força do colectivo. Talvez possamos ver nesta forma de ser e de estar a maior singularidade do músico bracarense. A sua biografia fala de instrumentos tradicionais, de composição, de pesquisa e de uma permanente tensão entre passado e presente. Tudo isso é verdade, mas não chega. O que realmente o distingue é uma rara generosidade artística, uma disponibilidade para partilhar o palco, o saber e a responsabilidade da criação que reforçam a sua identidade autoral. Com apenas um workshop e três ensaios, Daniel Pereira Cristo conseguiu transformar mais de meia centena de participantes num organismo musical coeso, em cujo miolo soube cada voz encontrar o seu lugar de forma natural. E esta é uma qualidade que não se aprende nas escolas de música nem se escreve nos currículos: nasce da escuta, da empatia, da confiança e da capacidade de reconhecer talento nos outros, antes de procurar evidenciar o seu próprio talento. Obrigado, Daniel.

Por isso mesmo, o momento mais importante deste concerto não recaiu sobre uma canção em particular, embora “Saúde e Liberdade”“Que Força É Essa”“Confederação”, “Navegar, Navegar”, “Arriba o Monte” ou “Tens de Aprender a Dizer Não” tenham encontrado novas camadas de sentido nesta leitura colectiva. O essencial, contudo, aconteceu num plano menos visível. Uma vez mais o FESTA abriu espaço a um coro comunitário, levando-o a integrar de forma orgânica a programação do festival. Reunindo elementos do CásterAntiqua, do Canto Décimo, das Suspiro e dos cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, o coro comunitário prolongou uma quase declaração de princípios que vem fazendo escola no nosso Município. Num tempo em que tantas instituições culturais confundem participação com representação simbólica, projectos como este são a demonstração de que a comunidade pode ser muito mais do que simples destinatária da programação, sendo ela própria matéria de criação artística. Nisto residiu a maior virtude de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, ao recordar-nos que a tradição só permanece viva quando deixa de ser património para voltar a ser prática, quando deixa de ser memória para voltar a ser gesto partilhado.

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