TEATRO: “O Beijo no Asfalto”,
de Nélson Rodrigues
Encenação | Tónan Quito
Cenografia | José Capela
Figurinos | Elisabete Leão
Interpretação | Allex Miranda, Bárbara Meirelles, Beto Coville, Dai Ida, Gabriel Delfino Marques, Genário Neto, Joyce Souza, Julia Prado, Luciano Luz. Participação especial de Santa Barba (Paulo Pinto)
Produção | Teatro Nacional São João
105 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional São João
21 Jun 2026 | dom | 16:00
Arandir, um homem comum, acede ao pedido de um desconhecido atropelado por um autocarro em hora de ponta e beija-o na boca nos instantes finais da sua vida. Aquilo que poderia ser entendido como um acto de misericórdia transforma-se, porém, num escândalo público. A partir desse momento, a peça acompanha a destruição progressiva do protagonista, vítima de uma máquina social alimentada pela suspeita, pelo preconceito e pela necessidade de encontrar significados ocultos onde talvez exista apenas humanidade. Inspirada num episódio real que marcou profundamente o dramaturgo, a obra desloca rapidamente o foco do acontecimento para as narrativas que se constroem à sua volta. O beijo deixa de pertencer aos seus intervenientes e passa a ser propriedade da imprensa, da polícia, da vizinhança e da própria família. O que está em causa não é apenas um facto, mas a disputa pelo seu sentido, numa sucessão de versões, rumores e interpretações que tornam impossível o acesso a uma verdade definitiva.
Estreada em 1961, numa sociedade profundamente conservadora e moralista, a peça tocou num nervo exposto do Brasil urbano. Mais do que uma preocupação política, as reacções exaltadas que suscitou foram reveladoras de um incómodo moral perante a hipótese de intimidade entre dois homens. Contudo, reduzir “O Beijo no Asfalto” a uma peça sobre homossexualidade seria empobrecer a sua ambição dramática. O texto expõe uma sociedade obcecada pela vigilância da vida privada, com o desejo, a culpa, o ressentimento e a repressão a circularem por detrás das fachadas da respeitabilidade. A tragédia de Arandir nasce tanto da homofobia latente como da incapacidade colectiva de aceitar a complexidade dos afectos humanos. Nelson Rodrigues mostra a sua faceta de observador implacável das paixões escondidas e dos mecanismos sociais que transformam fragilidades íntimas em instrumentos de condenação pública. O amor impossível de Aprígio, o ciúme, a humilhação e o medo da revelação, inscrevem-se numa geografia emocional onde cada personagem se vê a braços com os seus próprios fantasmas.
A extraordinária actualidade da peça decorre sobretudo da reflexão sobre o poder dos discursos públicos. O verdadeiro motor da tragédia é a aliança entre uma imprensa sensacionalista e uma autoridade policial disposta a fabricar factos para servir os seus próprios interesses. O beijo converte-se numa manchete; a manchete converte-se em verdade; e a verdade passa a valer mais do que os acontecimentos que lhe deram origem. Muito antes da era das redes sociais, Nelson Rodrigues descreve com notável lucidez os mecanismos de amplificação da suspeita, da difamação e do julgamento colectivo. O que a peça mostra é uma sociedade onde os boatos circulam mais depressa do que os factos e onde a reputação de um indivíduo pode ser destruída pela mentira, transformada em verdade à custa da sua repetição incessante. Nesse sentido, “O Beijo no Asfalto” revela-se de uma contemporaneidade inquietante. A crítica ao moralismo, à manipulação mediática e à fabricação de narrativas continua a encontrar eco num presente em que a exposição pública e a condenação sumária são marcas do quotidiano.
A encenação de Tónan Quito compreende plenamente essa modernidade sem abdicar da dimensão trágica e passional do universo rodrigueano. Evitando leituras simplificadoras ou meramente ilustrativas, a peça sublinha a ambiguidade das personagens e a permanente tensão entre verdade e representação (o enunciado das didascálias é maravilhoso). O trabalho do elenco brasileiro revela-se notável pela intensidade emocional, pelo rigor do ritmo e pela capacidade de fazer emergir tanto a violência como a vulnerabilidade inscritas no texto. As interpretações conferem espessura humana a figuras que poderiam facilmente resvalar para a caricatura, tornando palpável o sofrimento, o desejo e a solidão que as movem. Ao mesmo tempo, a encenação encontra um equilíbrio feliz entre a especificidade histórica da obra e a sua ressonância contemporânea, permitindo que o público reconheça no Brasil dos anos sessenta inquietações que permanecem actuais. O resultado é um espectáculo de grande força, que honra a complexidade da escrita de Nelson Rodrigues e confirma a vitalidade duradoura desta obra-prima do teatro brasileiro.
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