Mais do que assinalar o centenário do nascimento de Vivian Maier, esta exposição antológica parece convocar um fantasma. Nas mais de cento e quarenta imagens, a artista surge-nos não como biografia resolvida, mas como rasto, como uma sucessão de provas materiais de uma existência que se quis lateral ao mundo. Há, desde logo, um paradoxo inaugural nessa obra gigantesca: meticulosamente acumulada e simultaneamente subtraída ao olhar do público, a exposição não dissolve esse enigma, antes o intensifica ao organizar-se em núcleos que sugerem coerência onde talvez tenha existido apenas pulsão. O visitante atravessa as quatro amplas salas do Centro Português de Fotografia como quem percorre um arquivo íntimo violado pelo acaso, recordando que tudo começou com um leilão, um gesto administrativo que abriu uma caixa de Pandora visual. A curadoria opta por não explorar em excesso esta origem, preferindo deixar que as imagens sustentem o peso da revelação. E sustentam-no: cada fotografia parece conter uma reserva de silêncio, como se tivesse esperado décadas pelo instante de ser vista.
No núcleo mais formalista, percebe-se que Vivian Maier, mais do que procurar apenas o mundo, procurava um sistema de o ordenar. O enquadramento frontal, a economia de elementos ou a geometria quase involuntária dos objectos apontam para uma disciplina do olhar que roça a obstinação. Há imagens em que o referente se esvazia, cedendo lugar a linhas, ritmos, tensões discretas. Poder-se-ia acusar esta abordagem de frieza, de uma certa indiferença ao “assunto”, mas seria talvez ignorar que, na artista, a forma é já um princípio ético. Fotografar de frente, medir distâncias, insistir na justeza do equilíbrio, são gestos que recusam tanto o sentimentalismo como a dramatização. A exposição põe o dedo na ferida ao sublinhar esta dimensão, mostrando como o formalismo não é fuga, mas método de aproximação. Ao reduzir o mundo a relações visuais essenciais, Maier parece dizer que ver é, acima de tudo, escolher onde termina o excesso.
O núcleo dedicada aos retratos — sobretudo de mulheres, idosos, sem-abrigo — faz com que a tensão se desloque. Palavra-chave da prática artística de Vivian Maier, a distância torna-se ambígua, basculando entre a protecção e a intrusão. Há imagens roubadas, de relance, onde o sujeito permanece resguardado por uma espécie de véu invisível; noutras, o confronto é directo, quase brusco, como se a fotógrafa testasse os limites da tolerância alheia. Este jogo de aproximação e recuo expõe uma ética instável, por vezes desconfortável, que a exposição não procura suavizar. Pelo contrário, deixa ver a assimetria social inscrita em muitos destes encontros, bem como uma certa identificação com os mais vulneráveis e a ironia dirigida aos que exibem um ar ostentatório. Importa reconhecer que Vivian Maier é tudo menos inocente. A sua câmara participa, interfere, provoca. Nessa fricção ganham os retratos espessura, mostrando-se não apenas como documentos, mas acontecimentos. Reflexo, sombra ou silhueta, são inúmeros os casos em que a própria artista faz questão de se infiltrar na imagem, contaminando o rosto do outro com a sua presença espectral, como se todo o retrato fosse, inevitavelmente, um autorretrato disfarçado.
Há ainda um conjunto de secções dedicadas aos autorretratos, à rua e à infância que completam o percurso com uma espécie de declaração tácita: fotografar era, para Vivian Maier, uma forma de existir. Nos espelhos, vitrinas e poças de luz, a sua figura surge fragmentada, recusando a frontalidade, como se a identidade fosse sempre um desvio. Nas ruas de Nova Iorque e Chicago, a multidão transforma-se em matéria dramática mínima — gestos, olhares, roupas — onde o extraordinário se infiltra no banal sem grande alarde. E nas crianças, talvez por afinidade biográfica, encontra-se uma suspensão rara, um território onde o olhar é abertura, mas pode ser também defesa. A passagem à cor e ao filme, já tardia, introduz uma leveza inesperada, quase lúdica, sem romper com a lógica anterior, antes prolongando-a, como se a experiência cromática fosse apenas outra maneira de testar o real. No fim, a exposição deixa uma impressão persistente: a de que Maier nunca procurou “fazer obra”, mas sim habitar o intervalo entre ver e ser vista. Nesse intervalo, incerto e fértil, o seu trabalho não cessa de nos interpelar.
.Tenho acompanhado esta odisseia, falta -me visitar a exposição.
ResponderEliminarObrigada pela publicação. Felicito-o. Bom dia!