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terça-feira, 19 de maio de 2026

TERTÚLIA: Música com História XIII | Herman José



TERTÚLIA: Música com História XIII
Com | Joel Cleto, Miguel Araújo e Herman José
Organização | Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos
Grande Auditório da Casa Diocesana de Vilar
17 Mai 2026 | dom | 16:00


A 13.ª sessão de “Música com História”, iniciativa promovida pela Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos, confirmou aquilo que já se adivinhava muito antes de as portas do Auditório da Casa Diocesana de Vilar se abrirem: Herman José continua a ser um caso raro de popularidade, capaz de mobilizar gerações inteiras para uma celebração colectiva da memória, da música e do humor. Os cerca de mil e trezentos lugares disponíveis esgotaram em menos de doze horas, num fenómeno pouco habitual mesmo para um ciclo que já habituou o público a convidados de enorme estatuto. A expectativa encontrou plena correspondência numa tarde em que Herman José demonstrou conservar intactas a agilidade mental, o sentido de oportunidade e a presença cénica que fazem dele, de há meio século para cá, uma das figuras maiores do espectáculo em Portugal. Desde os primeiros minutos, o humorista assumiu um tom de gratidão para com o Norte e as suas gentes, lembrando que aqui sempre encontrou um calor humano raro. “Sentia-me órfão quando saía do Norte”, confessou, evocando um público que “gosta dos espectáculos e não tem vergonha de o exteriorizar”.

Ao longo da conversa conduzida por Joel Cleto, houve música, evocação histórica e, sobretudo, um desfile contínuo de memórias capazes de provocar gargalhadas sucessivas numa sala rendida ao talento do humorista. Algumas das canções interpretadas por Miguel Araújo - “Os Maridos das Outras”, “Elogio da Preguiça”, “Talvez se eu Dançasse” ou “Fonte da Moura” – foram escolhidas pelo próprio convidado, revelando um gosto apurado pela escrita irónica e sentimental. Herman José não resistiu, contudo, a revisitar também alguns dos seus maiores êxitos, chamando ao palco “Senhor Feliz e Senhor Contente”, “Bamos Lá Cambada”, “A Cor do Teu Baton”, “Canção do Beijinho” e ainda “Podia Acabar o Mundo”, em dueto com Miguel Araújo. O reencontro com essas canções funcionou como uma espécie de viagem afectiva pela televisão portuguesa das últimas décadas. Ao longo de duas horas, Herman José apresentou-se rápido e eficaz no improviso, alternando histórias improváveis com apartes certeiros e uma capacidade única de dominar o ritmo da sala. Houve momentos em que bastou uma pausa, um olhar ou uma simples inflexão de voz para provocar o riso, prova de um conhecimento absoluto do palco e do tempo humorístico.

Uma das componentes mais celebradas da tarde foi o regresso de algumas das personagens emblemáticas do universo criado por Herman José. Sempre apaixonado pela Idália da Maria Rueff, o Nelo surgiu em palco protagonizando um dos momentos mais delirantes da sessão ao defender que “a única coisa que um gajo pode dar à sua gaja é um xi”, antes de avançar para uma versão absolutamente improvável de “She”, de Charles Aznavour. Também Serafim Saudade e José Estebes marcaram presença, este último servindo de pretexto para mencionar as inesquecíveis entrevistas com Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria Pedroto. Pelo meio, desfilaram histórias saborosas envolvendo José Hermano Saraiva, Fernando Pessa, Manoel de Oliveira, Jorge Palma, Hermínia Silva ou Clemente, num registo em que caricatura e memória souberam conviver de permeio com uma pontinha de malícia. Herman José evocou ainda figuras decisivas no seu percurso artístico, como José Carlos Ary dos Santos, Rosa Lobato Faria, Carlos Paião ou Thilo Krassman, lembrando cumplicidades criativas fundamentais para alguns dos seus maiores sucessos televisivos e musicais.

Com a mestria habitual, Joel Cleto foi cruzando a conversa com referências históricas da cidade e da região. A propósito dos 130 anos da primeira exibição de cinema realizada em Portugal por um português, evocou Aurélio da Paz dos Reis e o antigo Teatro Príncipe, mais tarde Teatro Sá da Bandeira. Aproveitando o recente título nacional de futebol conquistado pelo Futebol Clube do Porto, lembrou o papel de António Nicolau de Almeida na fundação do clube, em 1893, sem esquecer que o mais antigo clube da cidade continua a ser o Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, criado em 1855. Houve ainda espaço para assinalar os 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da UNESCO, efeméride que será celebrada em Dezembro. Mas a tarde pertencia sobretudo ao humor e à memória colectiva: da rábula da Rainha Santa Isabel em “Humor de Perdição” ao hilariante relato sobre uma discoteca escondida junto à Ponte D. Luís, passando pelas histórias do Festival da Canção de 1983 no Coliseu do Porto e pelas tiradas sobre comprimidos de ecstasy, empresários de Paços de Ferreira ou cantores que fazem playback com fitas a girar ao contrário, tudo contribuiu para um ambiente de permanente cumplicidade entre o palco e plateia.

No final, coube a José Carlos Gonçalves, juiz-provedor da Confraria, agradecer a presença do público e recordar o papel patrimonial e social da instituição, sublinhando igualmente a importância deste género de iniciativas para a angariação de receitas, tão necessárias ao seu normal funcionamento. Fê-lo, porém, sem cerimónias excessivas e com uma tirada de génio que arrancou nova gargalhada geral ao admitir, em resposta a uma provocação do convidado, que a sessão tinha sido “das melhores merdas” a que assistira nos últimos tempos. O encerramento não poderia ter sido mais simbólico: a sala inteira levantou-se para cantar os parabéns ao jovem Vasco, que festejou doze anos, ao som do genérico de “Parabéns”, série televisiva protagonizada por Herman José em 1992. Foi um instante simples, mas revelador daquilo que verdadeiramente aconteceu na sala de Vilar: mais do que uma tertúlia, viveu-se uma celebração afectiva de um artista que permanece extraordinariamente presente, actual e capaz de unir diferentes gerações em torno do riso, da música e da memória.

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