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quarta-feira, 6 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: Júlio Pomar 1926 - 2026



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: Júlio Pomar 1926 - 2026,
de Júlio Pomar
Curadoria | Maria Arlete Alves da Silva
Centro de Arte Manuel de Brito
10 Jan > 12 Jun 2026


Se fosse vivo, Júlio Pomar teria completado, a 10 de Janeiro, cem voltas ao sol - expressão que lhe assentaria bem, a ele que sempre pintou como quem gira em torno de um astro interior, ardente e indomável. O centenário do seu nascimento é assinalado no Centro de Arte Manuel de Brito com uma exposição que atravessa seis décadas de trabalho, de 1944 a 2004, e que confirma o que a história fixou: Pomar é o artista mais representado na colecção Manuel de Brito. Não por acaso. Entre o galerista e o pintor houve mais do que cumplicidade estética; houve afinidade geracional, percurso cívico e político semelhante, e uma amizade tecida na admiração mútua. Quando Manuel de Brito abriu a galeria, o desejo de expor Pomar foi tão veemente que aceitou mostrar obras já vendidas como a série do Pantagruel, de Rabelais, num gesto de confiança e de fé na força da pintura. Esse foi o início de um diálogo que perduraria mais de meio século, feito de conversas, riscos e apostas, e que hoje se celebra como parte da própria narrativa da arte portuguesa do século XX.

A exposição no CAMB propõe um itinerário quase total pela obra de Pomar, revelando as suas sucessivas metamorfoses. Pomar rompeu com estilos como quem muda de pele, recusando a repetição confortável e procurando sempre outra respiração para a pintura. Do neorrealismo inicial, onde a figura humana se ergue como consciência e denúncia, às tauromaquias vibrantes, das corridas de cavalos captadas no instante febril do galope ao eco visual de Maio de 68, cada fase traduz uma inquietação que nunca se deixou acomodar. Surgem o Banho Turco, as séries eróticas, os tigres de olhar hipnótico, o Livro dos Quatro Corvos com os retratos de Poe, Baudelaire e Pessoa, numa meditação plástica sobre a sombra e a palavra. Depois, a viagem ao Brasil: Os Mascarados de Pirenópolis, os Índios do Xingu, onde a cor se adensa e o gesto se liberta. E, por fim, as últimas pinturas com colagens e objectos, como se a tela já não bastasse e fosse preciso rasgá-la, acrescentar-lhe matéria, feri-la para a tornar mais viva.

Desenhar e pintar animais foi uma constante ao longo da sua vida: galos altivos, hienas inquietantes, lobos e macacos, porcos, tigres, gatos, girafas, burros, cabras, ratos, corvos e mochos, papagaios e abelhas, camelos, cavalos e touros, rinocerontes, veados, búfalos, tartarugas, lebres ou caracóis. Nessa arca pessoal cabia todo o reino animal, observado não como ornamento mas como espelho do humano. Muitas vezes, corpos de homens e de bichos fundem-se numa exaltação carnal que é simultaneamente celebração e combate. A última pintura, significativamente intitulada “Arca de Noé”, surge como símbolo de salvação e de memória, síntese de uma trajectória que nunca separou vida e arte. Paralelamente, a poesia e o ensaio revelam outro Pomar, reflexivo e interrogativo. No seu livro “Então e a Pintura?”, escreve: “O fim que me propus: inscrever na tela o vivo da vida”. Essa poderia ser a legenda de toda a exposição. Ao percorrê-la, percebe-se que cada ruptura, cada série, cada risco foi uma tentativa de fixar o pulsar do mundo. Não a sua aparência, mas a sua febre.

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