DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Interpretação Abel Rojo, Alejandro Fuster, Ana de Oliveira e Silva, Ángela Diaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Duarte, Esmée Aude Capsie, Inês Fertuzinhos, João Cardoso, Joana Couto, José Jalane, José Santos, Liliana Oliveira, Rémi Bourchany, Tiago Barreiros, Tomás Fernandes, Valter Fernandes
Produção | Nome Próprio
75 Minutos | Maiores de 16 Anos
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica
Teatro Nacional S. João
23 Mai 2026 | sab | 19:00
Há espectáculos que ocupam um palco; “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” ocupa um estado de espírito. Através dele, Victor Hugo Pontes regressa ao corpo como quem regressa ao primeiro território político, esse lugar inaugural onde a opressão começa e onde a liberdade encontra ainda a possibilidade de nascer. Logo no início, dois corpos medem-se num duelo que parece também um reconhecimento impossível: aproximam-se e recuam, como se a intimidade fosse ainda uma ameaça herdada. Depois, lentamente, o palco enche-se de uma humanidade nua, vulnerável e imensa. Não se trata aqui da nudez como provocação, mas como despojamento radical, um corpo sem ornamento, sem classe, sem época, sem defesa. Atravessada por enormes hélices suspensas, o cenário faz pensar simultaneamente num hangar, numa fábrica e numa catedral profana. Tudo parece preparado para uma transformação iminente, embora ninguém saiba exactamente de que forma ela chegará. É nesse intervalo, entre a expectativa e o abismo, que a peça encontra a sua pulsação mais funda. O verso de José Mário Branco deixa de ser citação e torna-se atmosfera: há sempre qualquer coisa prestes a acontecer. E o mais inquietante é perceber que essa coisa talvez já esteja a acontecer dentro dos corpos, antes sequer de ganhar nome ou História.
Victor Hugo Pontes constrói esta criação como uma sucessão de imagens que recusam fixar-se numa narrativa fechada. Há ecos de Pina Bausch, de Géricault, de Delacroix, de antigos rituais pagãos e de manifestações contemporâneas; mas tudo surge contaminado por uma matéria profundamente física, quase animal, onde o colectivo ganha uma densidade emocional única. Os dezanove intérpretes movem-se como um organismo único, feito de músculos, suor, respiração e confiança. Há mãos que carregam cabeças, pernas que sustentam troncos, corpos que se empurram e amparam numa coreografia onde o contacto nunca é decorativo: tocar o outro é sempre um gesto de sobrevivência. A beleza da peça nasce precisamente dessa oscilação entre fragilidade e potência. Cada quadro parece surgir do caos para logo regressar a ele, como se a comunidade fosse uma construção permanentemente ameaçada. Apesar da iminência da queda, o espectáculo insiste na possibilidade da ternura. Há uma delicadeza tocante na forma como aqueles corpos nus se oferecem ao olhar de todos, sem vergonha nem heroísmo. O palco transforma-se então num lugar de confiança absoluta, algo raro nos tempos que correm, habituados que estamos à à vigilância, à ironia e ao medo da exposição. Talvez por isso esta criação perturbe tanto, porque nos confronta com uma ideia de liberdade na qual já deixáramos de acreditar.
A dramaturgia visual da peça possui uma força invulgar na paisagem da dança portuguesa contemporânea. Victor Hugo Pontes não trabalha o movimento como mero virtuosismo coreográfico; trabalha-o como pensamento encarnado. Cada deslocação parece responder a uma pergunta antiga: como dança um corpo depois da repressão? Como se move uma comunidade depois da violência? O espectáculo evita respostas fáceis e prefere permanecer nesse território inquieto onde a libertação é simultaneamente desejo e risco. Quando os intérpretes atravessam o palco numa explosão de energia colectiva, ou quando irrompe o coro de “I Want to Break Free”, dos Queen, não estamos perante uma celebração ingénua da liberdade, mas perante a memória física da sua conquista. O que emociona não é o triunfo; é o processo. A sensação de que aqueles corpos aprenderam lentamente a confiar uns nos outros, a respirar juntos, a cair juntos. Há algo profundamente comovente nesta insistência do colectivo num tempo histórico marcado pela atomização e pela fadiga social. Cinquenta anos depois do 25 de Abril, o espectáculo não procura monumentalizar a Revolução: procura reencontrar-lhe a temperatura humana. Em vez de nostalgia, oferece presença; em vez de discurso, oferece pele.
No final, fica a impressão de termos atravessado não apenas um espectáculo, mas uma espécie de ritual contemporâneo sobre a condição humana. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” convoca-nos para um lugar anterior ao cinismo, onde ainda é possível acreditar que os corpos podem transformar o mundo ou, pelo menos, impedir que ele endureça completamente. A peça recorda-nos que toda a liberdade começa por uma exposição: mostrar-se, despir-se, deixar cair as armaduras interiores. Há qualquer coisa de profundamente político nesta escolha de vulnerabilidade. Num tempo saturado de identidades performativas e de violência simbólica, estes corpos nus devolvem à cena uma verdade desarmante: somos frágeis, semelhantes, transitórios. E talvez seja exactamente por isso que precisamos uns dos outros. O espectáculo termina, mas a sua imagem persiste muito para lá do aplauso. Não uma imagem fixa, mas um movimento contínuo, quase subterrâneo, como se aqueles corpos continuassem ainda a respirar dentro de nós. Saímos do teatro com a estranha sensação de que a mudança não pertence apenas às grandes revoluções históricas; pertence também ao instante em que um corpo decide aproximar-se de outro sem medo. É pouco? É tudo.
[Foto: ©José Caldeira | https://www.tnsj.pt/]
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