“Ao virar-se para o espelho, Catalina viu um rapaz. Um rapaz bonito. Um com quem talvez gostasse de sair e a quem deixaria deitar as cinzas do cigarro na bebida, porque algumas raparigas da escola dizem que isso é afrodisíaco, e ela gostaria de experimentar na pele o que é ter líbido. Olhou-o bem, tentando penetrar naqueles olhos através do seu reflexo, e apercebeu-se de que era um rapaz sem qualquer desejo sexual. Um que não cheirava mal dos pés nem escondia a Playboy debaixo da cama.”
Há romances que se leem como quem atravessa uma cálida tarde de Outono; e há outros, como “A Educação Física”, de Rosario Villajos, que se instalam no íntimo do leitor como um corpo estranho, insistente, doloroso, recusando à leitura o seu carácter apaziguador, quase terapêutico. Situada na indistinta periferia de uma qualquer cidade espanhola dos anos noventa, a narrativa condensa-se nas poucas horas de um trajecto à boleia, mas dilata-se na espessura interior de uma adolescência sitiada. Aos dezasseis anos, Catalina não sente as horas e os minutos apenas com a pressa de quem precisa urgentemente de chegar a casa. Nas suas memórias e na sua presença, é de vigilância, de medo e de culpa o lugar que atravessa, o tempo medido por um toque de recolher e o espaço pelo risco constante de existir num corpo feminino. Simultaneamente crua e lírica, a escrita constrói-se neste ambiente de suspensão, como se cada gesto pudesse precipitar uma queda. E, com precisão cirúrgica, convoca o rumor social de uma época marcada por silêncios cúmplices e pânicos colectivos.
O que torna esta obra particularmente incisiva não é apenas o retrato geracional, mas a forma como o corpo emerge, campo de muitas batalhas e território pronto a ser invadido. Nesta viagem ao coração da adolescência, ler “A Educação Física” é reconhecer a engrenagem de um sistema que transforma o corpo da mulher num perigo a conter, num problema a corrigir, num erro a justificar. Catalina não habita o seu corpo: arrasta-o, como se lhe tivesse sido imposto, alvo de indecifráveis expectativas, violências alheias e olhares que dele se apropriam. A família, a escola, a rua, enfim, as mais diversas instâncias, participam dessa expropriação subtil e brutal, na qual o desejo masculino se impõe e se esbate a subjectividade feminina. Sem ornamentos nem eufemismos, Rosario Villajos expõe a pedagogia informal do medo: a menstruação como tabu, o sexo como ameaça, a liberdade como imprudência. E, no entanto, é nessa mesma asfixia que a narrativa encontra a sua força crítica, revelando como a culpa se infiltra de forma persistente e se instala como mecanismo de controlo e repressão.
Há, contudo, uma dimensão mais funda, quase elegíaca, que atravessa o romance e que se condensa na consciência de uma perda, não apenas da inocência, mas de uma possibilidade de habitar o mundo sem medo. Rosario Villajos escreve com uma lucidez que recusa a nostalgia fácil, preferindo antes raspar com as unhas as fissuras de uma educação sentimental feita de interditos e equívocos. Neste apontar de dedo à família, à escola e à sociedade, o resultado é um texto incómodo, por vezes sufocante, mas necessário, que ecoa para além da sua época e interpela o presente com rara nitidez. No limite, Catalina não é apenas uma adolescente dos anos noventa. É uma figura recorrente, quase arquetípica, que persiste enquanto o corpo feminino continuar a ser disputado, interpretado e disciplinado por vozes que não são as suas. Na recusa em oferecer uma redenção fácil, obrigando-nos antes a permanecer, vigilantes, dentro dessa inquietação, encontra “A Educação Física” o seu lado mais cru e duro, mas também o mais belo e urgente.
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