CINEMA: “Caso 137” / “Dossier 137”
Realização | Dominik Moll
Argumento | Gilles Marchand, Dominik Moll
Fotografia | Patrick Ghiringhelli
Montagem | Laurent Rouan
Interpretação | Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Pascal Sangla, Claire Bodson, Julien Lilti, Florence Viala, Hélène Alexandridis, Stanislas Merhar, Antonia Buresi, Geneviève Mnich, Christian Sinniger, Sandra Colombo, Côme Péronnet, Alicia Mady
Produção | Caroline Benjo, Barbara Letellier, Carole Scotta
França | 2025 | Crime, Drama | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
13 Abr 2026 | seg | 16:10
Depois do impactante “A Noite do Dia 12”, Dominik Moll regressa a um território que tão bem domina: o da investigação como instrumento de dissecação moral e social. Inspirado na crise dos “coletes amarelos” de 2018, o filme acompanha Stéphanie Bertrand, agente da IGPN – mais conhecida como a “polícia das polícias” - incumbida de apurar responsabilidades num caso de violência policial que deixou um jovem manifestante gravemente ferido. Aquilo que à partida parece um procedimento rotineiro depressa se transforma num labirinto de versões contraditórias, silêncios cúmplices e resistências internas. Moll constrói o filme como um puzzle burocrático, fazendo de cada depoimento, de cada imagem de videovigilância, de cada relatório, uma peça que se acrescenta a uma verdade sempre incompleta. Escritórios anónimos, interrogatórios filmados em tempo quase real e um ritmo deliberadamente lento mostram o quanto a realização privilegia a sobriedade, a tensão a emergir não da acção, mas do confronto psicológico e da persistência.
Assinado por Dominik Moll e Gilles Marchand, o argumento revela um rigor quase cirúrgico na forma como acompanha todas as etapas da investigação, recusando atalhos dramáticos ou simplificações morais. “Caso 137” evita tanto a absolvição fácil como a condenação sumária, preferindo expor as zonas cinzentas de um sistema corporativista, empenhado em proteger-se a si próprio. Neste contexto, a interpretação de Léa Drucker impõe-se pela contenção e pela densidade: a personagem Stéphanie é metódica, resiliente, mas também progressivamente fragilizada por um trabalho que a isola e a coloca sob suspeita, tanto entre colegas como perante a opinião pública. Subtilmente sugerida em momentos de solidão ou em gestos aparentemente marginais, a dimensão íntima reforça o retrato de uma mulher refém da ética profissional e da pressão de um meio hostil. Ao mesmo tempo, personagens secundárias, como a testemunha relutante oriunda das periferias, introduzem uma dimensão social mais ampla, onde a desconfiança nas instituições se cruza com as desigualdades estruturais.
Mais do que um simples policial, “Caso 137” afirma-se como um espelho incómodo de uma sociedade fracturada, no seio da qual a verdade se dilui entre narrativas concorrentes e interesses institucionais. A inclusão de imagens de arquivo e registos captados por telemóveis reforça a sensação de realidade e sublinha a violência latente de um contexto marcado pela tensão entre o Estado e os cidadãos. Dominik Moll não procura respostas definitivas; pelo contrário, insiste na ambiguidade e na frustração de um processo que raramente conduz a uma justiça plena. A pergunta que ecoa no final - sobre a utilidade de um trabalho feito com rigor mas sem consequências palpáveis - sintetiza o desencanto que atravessa todo o filme. Ainda assim, é precisamente nessa recusa de simplificação que reside a sua força: um cinema que incomoda, que interpela e que lembra que a verdade, antes de ser proclamada, exige um esforço solitário e muitas vezes inglório.
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