No arranque da segunda metade do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, a organização elegeu o ambiente intimista e de recolhimento da Capela do Calvário para a apresentação a solo do consagrado alaudista norte-americano William Carter. Depois de aqui termos escutado, no ano passado, um conjunto de obras-primas do Barroco na flauta de bisel de Robert Ehrlich e no cravo de Alexander von Heißen, este foi um retomar da viagem a um dos mais fascinantes períodos da história da música, tendo sido possível apreciar o quanto de subtileza, graça, harmonia e beleza a música pode conter quando devolvida em acordes de rara mestria e virtuosismo. Tornada espaço de afinidades electivas e de emoções contidas, a Capela do Calvário foi palco privilegiado de evocação de um tempo em que os acordes reverberaram na intimidade dos salões, alimentando uma respiração comum entre William Carter e todos aqueles que tiveram o privilégio de o escutar. Instrumento de murmúrios e sombras luminosas, o alaúde foi a voz de uma conversa que atravessou séculos, oferecendo-se com a naturalidade de quem fala com fluência uma língua antiga, feita de madeira, cordas e silêncio.
O programa já insinuava a ideia de reinvenção, a música como matéria viva capaz de se reimaginar e de voltar ao convívio do público sempre livre e renovada. Foi isto que pudemos apreciar “no salão musical de Bach”, uma viagem que teve o seu início muito antes de Bach e que se prolongou para além dele, como se o compositor alemão surgisse no centro de uma constelação de mestres do alaúde. Nesta fascinante viagem, foi a arquitectura sonora do compositor que se impôs como pedra de toque. Para quem raramente escreveu a pensar nas limitações do intérprete, antes imaginou uma música que fosse além das fronteiras naturais dos instrumentos, Bach soube, como ninguém, transportar para o alaúde obras originalmente concebidas para violino ou violoncelo, criando verdadeiras transmutações sonoras que trouxeram uma nova vida musical a um vasto conjunto de peças. Foi nesse território que William Carter se moveu com rara elegância. O seu toque, de uma serenidade quase contemplativa, fez sobressair a continuidade melódica e a subtileza das danças escondidas na escrita bachiana, da leveza de um Adágio à tensão de uma Fuga ou à vertigem de um Presto.
As páginas de Esaias Reusner franquearam as portas do salão com a elegância austera do século XVII, prelúdios e pavanas a ensaiarem a respiração de uma dança processional lenta, solene e majestosa. A música de Sylvius Leopold Weiss trouxe ao programa a plenitude do instrumento, espalhando acordes, ora meditativos, ora cintilantes, capazes de reverberações medievalistas num universo de dança e fantasia. Mais atrás no tempo, o repertório de Ennemond Gaultier evocou a delicadeza francesa do alaúde barroco, cada acorde desenhado com o sentido de suspender o tempo. A pouco conhecida “La Cascade”, uma “chaconne” alegre e plena de lirismo no seu desígnio de mostrar até que ponto definhamos sem um pouco de música (e de vinho), foi um momento de felicidade suprema conduzido por William Carter de forma intensa, entusiástica e sensível. E assim o concerto terminou tal como começara, envolto numa atmosfera encantatória, onde cada nota pareceu suspensa no ar por instantes mais longos do que o tempo. No dedilhar subtil do alaúde, nada pareceu demonstrativo em William Carter; tudo soou simples, fluido, inevitável. E a música, simplesmente, aconteceu.
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