CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
Com | Leonor Neves (piano), Pedro Castro (violino), Angel Luna (trompa), Luisa Margalho (violino), Maria Helena Perez (violino), Leonor Colaço (flauta), Beatriz Santos (fagote), Viviana Pereira (piano), Matilde Rocha (piano), Miguel Martins (violino) e Joana Pinto (violoncelo)
ReabilitaSons 2026
Centro de Reabilitação do Norte
26 Fev 2026 | qui | 17h30
No retomar da parceria entre a Escola Profissional de Música de Espinho e o Centro de Reabilitação do Norte, o “ReabilitaSons” voltou a afirmar-se, muito mais do que um ciclo de concertos, como uma declaração de princípios sobre a reabilitação integral. À luz das recomendações da Organização Mundial de Saúde e do sublinhar do papel determinante das artes na promoção da saúde mental e física, iniciativas desta natureza têm vindo a revelar-se instrumentos terapêuticos subtis, mas de profunda eficácia. Foi isso que se percebeu ao final da tarde da passada quinta feira, com a música a saber intrometer-se num espaço habitualmente marcado por rotinas clínicas e desafios exigentes e a introduzir uma suspensão no tempo, abrindo nele rasgos de beleza e transcendência. Utentes, familiares e profissionais tiveram o privilégio de partilhar o mesmo silêncio expectante e o mesmo aplauso caloroso, dissolvendo hierarquias na comunhão estética. A cultura foi, não ornamento, antes extensão do cuidar no que tem de estimulação da memória, convocação de emoções, reforço de vínculos e demonstração da capacidade de restituir aos doentes uma dimensão de participação activa na vida comunitária.
Fazer de cada concerto um gesto de inclusão e um exercício de esperança, levando a reabilitação física ao encontro de uma reabilitação emocional e social mais ampla e humanizada, voltou a ser o grande desígnio, com o programa a evidenciar inteligência na construção e diversidade nas propostas. A abertura com o Trio n.º 1 de Duvernoy, no diálogo entre piano, violino e trompa, trouxe clareza formal e elegância melódica, num Adagio de linhas cantáveis seguido de um Allegretto leve e comunicativo. De seguida, a célebre “Träumerei”, de Robert Schumann, aqui em arranjo para dois violinos, pairou sobre a sala com a delicadeza de uma confidência, explorando a respiração conjunta das intérpretes. O Larghetto do Trio (A.507) de Gaetano Donizetti revelou um lirismo operático transposto para a música de câmara, com flauta e fagote a entrelaçarem-se sobre o suporte atento do piano. Um momento de sublime beleza e encanto que nem uma arreliadora falha técnica conseguiu beliscar. A Sonata para dois violinos, Op.56, de Sergei Prokofiev, no seu Andante cantabile, expôs um equilíbrio subtil entre tensão e doçura, exigindo maturidade expressiva e rigor técnico que os dois violinos tão bem souberam assumir.
O fecho com o Trio com piano em Si bemol maior, K.254, de Wolfgang Amadeus Mozart, devolveu ao auditório a luminosidade clássica e a arquitetura transparente que caracterizam o génio de Salzburg. No Allegro assai, destacou-se a vivacidade do discurso e a articulação cuidada entre os três instrumentos, enquanto o Adagio trouxe recolhimento e nobreza de fraseado, num diálogo onde cada voz encontrou espaço e propósito. Ao longo de todo o concerto, os jovens músicos da Escola Profissional de Música de Espinho revelaram não apenas competência técnica, mas uma postura de entrega e consciência do contexto em que actuaram. Tocaram para um público particular, atento e emocionalmente investido, e souberam ajustar dinâmicas, respirações e silêncios a essa circunstância. Houve frescura, mas também responsabilidade artística; houve rigor, mas igualmente empatia. E nesse equilíbrio entre exigência e humanidade residiu a verdadeira grandeza da tarde: a música como ponte e cuidado, celebração e partilha.
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