É no coração da peça “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”, dirigida por Victor Hugo Pontes e actualmente em cena no Teatro Nacional de São João, que vamos encontrar a música de A garota não. Reunida num momento verdadeiramente único, o concerto acústico foi música, mas foi também regresso. Um regresso demorado às palavras de Manuel António Pina, como quem volta mansamente a um lugar que já habitou e onde permanece ainda uma parte de si. Entre silêncios e canções, embalos e muitas confissões, Cátia Mazari Oliveira conduziu o público por um território íntimo onde poesia e melodia se confundiram, como se cada verso estivesse à espera de ser cantado desde o momento em que Pina o escreveu. A artista não interpretou simplesmente poemas, antes escutou-os por dentro e devolveu-os em forma de música, revelando uma rara capacidade de tratar as palavras como matéria viva, frágil e luminosa. Os temas tiveram o condão de abrir espaço para um mundo inteiro, ao qual a infância regressou pé ante pé, as recordações a moverem-se como sombras nas paredes de uma casa desenhada com cuidado e onde a música, como nos versos do próprio Pina, mostrou ter olhos fulgurantes capazes de transformar quem a escuta em canto.
Acompanhada pelos “hermanos salmonetes del Sado”, João Mota na guitarra e Sérgio Miendes na guitarra e baixo, A garota não desenhou um concerto que foi como uma viagem pelo génio irrequieto e sensível de Manuel António Pina, mas também pela originalidade e inventividade da cantora. Nos poemas tornados em canção - de “Amor como em casa” a “Os Gatos”, de “Como se desenha uma casa” a “[4 de Juho de 1965]” -, percebeu-se o milagre raro de duas vozes artísticas que se encontram, sem nunca se terem encontrado fisicamente. Mais do que ilustrar os textos, as ideias, os pensamentos ou as afirmações de Manuel António Pina e daqueles que sobre ele tiveram algo a dizer, A garota não procurou habitá-los. E ao fazê-lo, trouxe para o concerto aquilo que talvez seja o coração secreto da uma obra reconhecidamente viva e livre: a infância, esse lugar frágil e absoluto onde se escondem as primeiras perguntas sobre o mundo. As canções espalharam-se pelo espaço da bonita sala do São João como pequenas chamas acesas na memória de todos, convocando a ternura, a inquietação e a ironia que atravessam a escrita do poeta. O público escutou em silêncio, não um silêncio vazio, mas aquele silêncio atento que nasce quando sentimos que algo essencial está a acontecer diante de nós.
Mas este encontro da cantora com poeta não viveu apenas da memória, da delicadeza e do sonho. Houve nele também uma força crítica a ligar intimamente os dois universos. Quem conhece o percurso artístico de A garota não reconhece a sua música de intervenção, a coragem com que denuncia injustiças e desmonta as pequenas e grandes hipocrisias do nosso quotidiano. E é precisamente aí que a voz de Manuel António Pina ressurge com espantosa actualidade. Nos textos mais mordazes - como os que partem das suas crónicas “A Nação ao Espelho” e “J’accuse”, por exemplo - revela-se o mesmo olhar crítico, a mesma lucidez perante um país onde, tantas vezes, “nem mesmo quando as provas são provas dessas provas, o esperto dança e não cai”. Ao cruzar estas palavras com a sua música, a cantora mostra que a obra do poeta não pertence apenas à memória literária: pertence ao presente, ao debate, à inquietação moral do nosso tempo. No final, o que permanece é a sensação de termos assistido a algo raro: um concerto que foi também um acto de leitura, de escuta e de resgate. E quando a última canção se dissipou no ar, ficou no público um desejo quase físico: o de voltar aos livros do Pina, regressar às palavras do Pina, procurar nelas, outra vez, aquele lugar onde a memória, a infância e a esperança ainda podem encontrar abrigo.
Sem comentários:
Enviar um comentário