Imperdível para quem segue as linhas com que se cose a cultura portuguesa contemporânea, “Meu Nome António”, exposição patente no MUDE até 26 de Abril, devolve ao olhar do visitante a figura controversa de António Variações graças a um conjunto de oitenta e cinco fotografias de Teresa Couto Pinto, realizadas entre 1981 e 1983, no período decisivo da consagração do artista. Extraído de uma canção inédita do músico, o título da exposição enquadra um percurso que acompanha a afirmação de uma das figuras mais singulares da pop nacional, desde a estreia televisiva com Júlio Isidro até à gravação dos álbuns “Anjo da Guarda” e “Dar & Receber”. O conjunto é apresentado num espaço de forte carga simbólica - o antigo cofre forte, no coração do edifício que foi outrora o Banco Nacional Ultramarino -, o que acentua a dimensão íntima e reveladora destas imagens, guardadas durante décadas e agora expostas como um retrato essencial de um artista que fez da diferença uma forma de estar.
O trabalho de Teresa Couto Pinto revela uma relação de profunda cumplicidade com António Variações, nascida no final da década de 1970, quando ambos atravessavam momentos de transformação pessoal. Amiga, confidente e fotógrafa, é através do seu olhar atento e sensível que Variações se deixa ver para lá da persona mediática. Icónicas, menos conhecidas ou inéditas, as imagens mostram-no em retratos encenados, em casa ou diante de fundos neutros, revelando uma figura simultaneamente provocadora e envergonhada, audaciosa e contida. A exposição integra também peças de vestuário, acessórios e objectos da sua atividade como barbeiro, sublinhando a coerência entre música, imagem, moda e quotidiano, numa identidade construída com rigor, liberdade e intenção estética.
Ao longo dos vários núcleos, emerge um António Variações profundamente visual, que mistura referências do Minho com influências cosmopolitas, do fado ao pop rock, numa linguagem que definiu como situada entre “Braga e Nova Iorque”. As fotografias captam o seu carisma performativo, o cuidado extremo na escolha de roupas e adereços e a força simbólica de gestos e objectos, como as tesouras que se tornaram uma das marcas identitárias do artista. Nos ensaios para a capa de “Dar & Receber”, acompanha-se o processo criativo partilhado entre artista e fotógrafa, onde artifícios simples ganham densidade poética. É esse trabalho rigoroso e empático de Teresa Couto Pinto que permite devolver ao presente uma figura ímpar da sociedade portuguesa, na sua complexidade, fragilidade e ousadia intemporal.
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