Páginas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

CONCERTO: Wim Mertens Ensemble



CONCERTO: Wim Mertens Ensemble
Com | Wim Mertens (piano), Jan Smets (trombone), Anthony Devriendt (trompa), Simon Van Hoecke (trompete), Simon Diricq (saxofone)
Centro de Artes e Espectáculos de Vale de Cambra
01 Fev 2026 | dom | 18:00


Domingo, fim de tarde em Vale de Cambra. A chuva persistente e um frio pouco convidativo, desses que normalmente empurram o corpo para o conforto doméstico, serviram de teste à determinação de quem sai de casa por amor à música. Nada disso, porém, pareceu demover o público que, apesar das condições adversas, encheu por completo o auditório do Centro de Artes e Espectáculos, como se aquele acolhedor porto de abrigo fosse, por algum tempo, um aquário protegido do mundo exterior. Antes de dar início ao concerto, Wim Mertens tomou a palavra para apresentar As Water is to Fish, o novo álbum que serviria de eixo ao concerto, explicando, com o apoio de uma jovem tradutora, as três premissas que estruturam a obra: A pergunta quase metafísica sobre se é possível ver o choro de um peixe dentro de água; a ideia de uma consciência ausente, como a do peixe que desconhece o meio que o envolve; e, por fim, a constatação de que aquilo que é absolutamente essencial dispensa um nome. A partir desta relação indissociável entre peixe e água, Mertens mergulhou num exercício de distanciamento e afrouxamento do laço, explorando terrenos em pousio, aceitando o erro, o desvio, o imprevisível. E abraçando movimentos súbitos, quase instintivos, tanto na música como no comportamento humano.

Em palco, Wim Mertens apresentou-se ao piano, acompanhado por quatro músicos do seu ensemble de sopros, numa formação mais depurada do que aquela que originalmente sustenta “As Water is to Fish”, mas que acabou por conferir às peças uma clareza acrescida e uma nova respiração. Com mais de quatro décadas de carreira e mais de setenta discos editados, o compositor belga continua a afirmar um estilo absolutamente reconhecível, onde o minimalismo se cruza com uma expressividade emocional quase hipnótica. As estruturas repetitivas, as variações subtis e a construção progressiva das peças foram-se desenrolando com naturalidade e elegância, guiando o público por paisagens festivas e de grande elegância e sofisticação. A escrita para sopros revelou-se particularmente eficaz na criação de densidades tímbricas e pequenas fricções harmónicas, sublinhando um Mertens que, longe de se repetir, continua interessado em explorar novas possibilidades dentro de um vocabulário que lhe é próprio. Foi assim com o enlevado “Brachliegend”, o festivo “Want het was me het weekje weer wel”, o classicista “Mutual Overwriting”, o delicado “Bon gré, mal gré”, o vertiginoso “Effet-tunel” ou o subtil “Amorce”.

A caminhar para o final, o alinhamento do concerto centrou-se em “Ranges of Robustness”, álbum de 2024 dedicado à poeta russa Marina Tsetaieva, figura central e trágica do projecto. Ainda que apresentado aqui numa versão necessariamente mais contida, o material manteve a sua força expressiva, revelando uma música mais áspera, por vezes mais angulosa, mas igualmente atravessada por um lirismo pungente e uma tensão permanente entre fragilidade e resistência - ideias que ecoam a própria vida e obra da poeta homenageada. O concerto encerrou de forma apoteótica com um encore prolongado, durante o qual Mertens recuou no tempo para revisitar, entre outros, “Struggle for Pleasure”, tema icónico que continua a funcionar como ponto de encontro entre gerações de ouvintes. A resposta calorosa do público confirmou o concerto como um todo coeso, envolvente e de uma beleza serena, capaz de dialogar tanto com um público mais familiarizados com a obra do compositor como com aqueles que a escutaram pela primeira vez. Apesar da chuva e do frio lá fora, dentro do auditório o tempo do concerto - mais de duas horas (!) - foi tudo menos árido, antes um mergulho fundo no universo singular, coerente e intensamente vivo e livre de Wim Mertens.

Sem comentários:

Enviar um comentário