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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

CONCERTO: Camané



CONCERTO: Camané
Com | Camané (voz), José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola), Paulo Paz (contrabaixo)
Teatro Aveirense
21 Fev 2026 | sab | 21:30


Camané subiu ao palco do Teatro Aveirense para mostrar o quanto a depuração pode arrastar em si a intensidade mais vertiginosa. Nada de gestos largos, nenhum artifício cénico a distrair a escuta, apenas a voz, erecta e sóbria, a rasgar o silêncio como uma lâmina, a talhar na penumbra a matéria invisível da emoção. Fiel a uma trajectória que fez da palavra território sagrado e da contenção instrumento dramático, Camané desenhou o concerto como rito de contenção e verdade. Instantes houve em que a sala pareceu suspensa no fio de um verso - “o amor quando se revela” -, como se a revelação fosse menos epifania do que espaço aberto na memória. Cada pausa foi acção, cada sílaba um gesto ético, cada inflexão uma escolha estética irrevogável. Nesse recolhimento atento, a emoção não se derramou, antes condensou-se até ganhar raízes. E foi nessa condensação, quase ascética, que o espectáculo encontrou grandeza rara, fazendo do silêncio não ornamento, mas pulsação secreta, nervo exposto que sustentou toda a arquitectura da noite.

Ao percorrer geografias diversas da sua discografia, Camané teceu o alinhamento do concerto como quem atravessa estações de uma mesma viagem interior, costurando tradição e reinvenção de forma lúcida e inteligente. A guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o contrabaixo de Paulo Paz mostraram-se irrepreensíveis na construção de um tecido sonoro depurado, de transparência quase líquida, os acordes a surgirem como extensões orgânicas da respiração do fadista. A cumplicidade com Neto revelou-se em subtis oscilações de dinâmica, ora sustentando um dramatismo contido, ora abrindo clareiras de leveza melancólica, como em “Com Que Voz”, as palavras de Luís Vaz de Camões transmudadas em tristeza e dor. “Te Juro” foi promessa a ganhar densidade moral, “Fado Sagitário” fez o destino soar a constelação íntima, “Amar Não Custa” mostrou o quanto de afirmação estética pode residir na simplicidade e “Saudades Trago Comigo” não foram apenas verso, mas condição humana partilhada. Nada sobrou, nada faltou: tudo foi rigor melódico, dicção cristalina e uma intensidade a raiar o incêndio.

Pelo palco passaram as palavras de Sebastião Belfort Cerqueira, Manuela de Freitas, José Carlos Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, Alexandre O’Neill ou Pessoa, numa travessia que foi do “Fado Alfacinha” ao “Fado da Bica”, do “Fado Cravo” ao “Fado Moliceiro”, sem esquecer a “Casa da Mariquinhas”, como se cada fado fosse casa habitada por fantasmas luminosos. O contraponto de modernidade surgiu na poesia de Pedro Abrunhosa, enquanto a herança de José Mário Branco se impôs num conjunto de temas inspirados, com destaque para os incontornáveis “A Guerra das Rosas” e “Ela Tinha Uma Amiga”, momentos de tensão subtil e contida. “Fado Peniche” e “Sei de Um Rio” colheram aplausos prolongados, como se o público resistisse a regressar ao tempo comum. Mais do que concerto, esta hora e meia com Camané foi experiência de comunhão exigente, foi tradição e risco de mãos dadas, memória e presente entrelaçados. Foi narrativa contínua onde cada verso encontrou o seu exacto peso específico e cada silêncio disse mais do que qualquer excesso poderia ousar. Memorável!

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