À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.
“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”
O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.
“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.
Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”
Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.
Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro “não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico. Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.”
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