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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo” | Carlos Olivera



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”,
de Carlos Olivera
Curadoria | Saúl Ponce Valdivia
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Museu de Aveiro / Santa Joana
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


“Abordei a cerâmica com o entusiasmo de uma criança, o mesmo entusiasmo que me move em todos os processos criativos nos vários suportes que utilizo no meu trabalho; claro que recebi bons conselhos dos meus amigos ceramistas sobre o comportamento dos materiais minerais a mais de mil graus e estou-lhes grato. Deixo os rigores factuais da química pura para os especialistas e não me envergonho de ser um questionador constante. Não faço cerâmica por opção, apenas gosto de brincar e tento não perder a frescura. Para mim, será sempre uma questão de magia.”
Carlos Olivera

Desde tempos imemoriais que a argila tem sido cúmplice das mãos humanas, encontrando nelas o gesto de quem procura traduzir o caos natural em formas elementares. Exemplos desta realidade não faltam, cabendo-me hoje traduzir por palavras uma exposição fantástica do ceramista peruano Carlos Oliveira, intitulada “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”. Aquilo que as peças expostas exprimem é o regresso de Olivera a esse ponto zero da criação, a uma cerâmica que emerge da ancestralidade cósmica e que faz do barro matéria e metáfora: Corpo frágil, ventre criador, espelho de um universo em perpétua mutação. Cada peça é a prova de que o barro é uma entidade viva, dócil e sagrada, que aceita estiletes, cicatrizes, pigmentos e estados de alma, como se cada intervenção estabelecesse um pacto com forças invisíveis. O artista faz do barro um ser mediúnico, capaz de incorporar espiritualidades andinas, memórias do fogo, respirações do vento e gestos humanos que procuram a catarse, a cura ou a revelação. Nesse território táctil, onde a matéria absorve emoções com uma clareza quase mística, o barro deixa de ser simples recurso para se tornar em agente de transfiguração. E o olhar que nos devolve é duplo: mostra-nos tanto o esplendor quanto a sombra que transportamos, lembrando, a cada forma, que também nós somos seres de terra amassada, dependentes de uma mão que nos sustém e de um fogo que nos completa.

Em “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”, o gesto cerâmico de Olivera encontra um prolongamento vital na experiência vivida na Fábrica Grestel, em Vagos, onde o artista e o assistente Wilfredo Cruz se viram como “duas crianças numa fábrica de brinquedos”. Ali, no seio de uma comunidade de artesãos hábeis, atentos e disponíveis, a matéria voltou a surpreender, abrindo caminhos inesperados. O ambiente fabril — monumental, disciplinado e tecnicamente exigente — funcionou como laboratório alquímico onde as altas temperaturas e os processos coloidais redefiniram a forma e a identidade das peças. Para Olivera, que sempre cultivou a vertigem criativa, o risco e a imprevisibilidade foram combustíveis do fogo criador: cada fornada foi uma iniciação, cada falha um desvio fértil, cada descoberta um pacto silencioso entre o artista, o barro e a chama. Dessa convivência de dois meses nasceram objectos híbridos, marcados pela cumplicidade com os trabalhadores e pelo entendimento de que a cerâmica pode ser simultaneamente disciplina e desobediência. A residência artística, enraizada na tradição industrial mas atravessada por pulsões espirituais andinas, tornou possível um conjunto de obras que parecem carregadas de uma certa aura benjaminiana — uma aparição irrepetível que se mantém à distância, mesmo quando está ao alcance da mão. É nesse encontro entre técnica rigorosa e imaginação indomada que se consolida a poética de Olivera: um modo de criar que aceita o abismo e que transforma o ofício em ritual.

A compreensão deste universo exige que atentemos no percurso do escultor peruano, cuja biografia revela uma constância rara. Desde a infância em Cusco, com exposições de plasticina aos dez anos, até às grandes esculturas em pedra instaladas em Lima e Barranco, o seu trabalho estabeleceu desde sempre um diálogo entre tradição, espiritualidade e experimentação formal. Olivera atravessou formações em restauro, conviveu com comunidades artísticas norte-americanas, participou em simpósios internacionais e criou obras monumentais que hoje habitam espaços públicos do Peru. Essa multiplicidade de vivências ecoa directamente no que agora apresenta: figuras em transe, rostos desdobrados, criaturas que parecem moldadas tanto pelo gesto humano quanto por forças telúricas. Em “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”, a cerâmica torna-se síntese desta trajectória, um palco onde se misturam a disciplina industrial aveirense e os espíritos dos Andes, a memória das rochas que esculpiu e a vontade incessante de se colocar “à beira do precipício”. A exposição não é apenas um conjunto de peças: É um campo sensorial onde matéria, história e ritual se interligam, convidando o espectador a entrar num jogo lúdico e iniciático. Aqui, Olivera parece dissolver-se no próprio barro, como se devolvesse à matéria aquilo que a matéria sempre lhe ofereceu, a possibilidade infinita de renascer.

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