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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Cores e Sons para Júlio Dinis" | Solange Azevedo



EXPOSIÇÃO: “Cores e Sons para Júlio Dinis”,
de Solange Azevedo
INoVAR as LETRAS
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
02 Nov 2025 > 22 Mar 2026


“O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves.”
Júlio Dinis, in “Serões da Província”

A exposição “Cores e Sons para Júlio Dinis” oferece-nos um duplo desafio: olhar a natureza através da palavra e escutá-la através da matéria. Dois poemas do escritor - “Nuvens” e “Dai-me do Campo” -, aliados ao herbário adquirido por Júlio Dinis numa das suas estadias na ilha da Madeira, funcionam como sementes de um processo criativo que se desdobra entre a pintura e a composição musical. Na sala polivalente do Museu, as telas organizam-se como se de um percurso sensorial se tratasse: próximas ou afastadas, as formas tendem a diluir-se, suspensas num território onírico onde a cor é estado e atmosfera. À medida que o olhar desce, a mancha condensa-se, o contorno emerge, e aquilo que parece ilusão revela-se presença. Tal como nas nuvens observadas à distância - belas, promissoras -, também aqui a proximidade transforma o encantamento em verdade material. São obras que derivam da observação do herbário, reinterpretando-lhe tonalidades e texturas, vendo nas marcas do tempo sinais de envelhecimento e de permanência, mas também valiosos elementos plásticos e poéticos. A pintura é, assim, gesto de preservação, um modo de fixar o instante antes que ele se desfaça.

No corredor do Museu, o visitante é convidado a entrar no avesso das obras graças a um curioso e vasto conjunto de esboços, anotações, experiências e inquietações. Este espaço funciona como um caderno aberto, onde se revelam as ideias de permanência, longevidade e eternidade associadas ao herbário e aos poemas e que consubstanciam o processo criativo. Para Solange Azevedo, “o herbário tem a capacidade de nos transportar para o sítio de onde vieram as plantas”, assim também uma obra de arte pode funcionar como uma viagem ao ponto zero da criação. Na análise que faz do poema “Nuvens”, a artista introduz o contraste entre realidade e ilusão, juventude e finitude, numa leitura atravessada pela biografia de Júlio Dinis, marcada pela doença e pela consciência precoce da fragilidade da vida. A distância, observa a artista, enfeita as coisas de esperança; a proximidade revela-lhes a substância. Esta transição - do contorno para a matéria, do sonho para o corpo - atravessa toda a exposição, ecoando em notas soltas: Olhar as nuvens como se olham os sonhos, perguntar se dói desabrochar, reconhecer no azul um estado de espírito e não apenas uma cor.

É precisamente desse encontro entre gesto e escuta que surgem as duas instalações sonoras que preenchem a parte final do percurso. Enquanto pintava, Solange Azevedo percebeu que o som seco do pincel sobre a tela a acompanhava, transformando o acto pictórico numa experiência audível. Daí nasce o “Herbário Sonoro”, uma instalação onde a tela se converte em instrumento: os sons produzidos durante a pintura são recolhidos, preservados e traduzidos em símbolos e instruções, convidando o visitante a tocar, a ouvir e a reflectir sobre a relação entre matéria e som. A instalação “Ecos e Gestos” amplia esse princípio, funcionando como uma partitura visual que articula os diferentes modos de interacção com o herbário sonoro, tornando visível a escrita do som. Tal como na pintura, a música constrói-se pela soma de partes: formas que se prolongam, ritmos que se complementam, silêncios que respiram. O silêncio da natureza, o silêncio do herbário e o silêncio entre as notas coincidem num mesmo espaço de escuta. Entre fragilidade e permanência, palavra, imagem e som encontram-se. E o tempo, ainda que apenas por um instante, torna-se visível.

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