Depois de um inoportuno adiamento, o Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga abriu-se finalmente a uma das vozes mais singulares e respeitadas da música portuguesa contemporânea. Reconhecido como um dos expoentes máximos do fado, Ricardo Ribeiro subiu ao palco com o peso sereno de quem, há mais de duas décadas, vem construindo uma carreira sólida, feita de rigor e verdade e não isenta de risco artístico. Num alinhamento plural, pontuado por intervenções bem humoradas e sábias reflexões no intervalo das músicas, ao longo de uma hora o cantor mostrou a forte apetência em ultrapassar fronteiras, tanto estéticas quanto geográficas, levando a sua música a estender-se a uma grande variedade de géneros e a abraçar os mais diversos públicos. Com seis álbuns editados e um sétimo “na calha”, Ricardo Ribeiro provou na bonita sala de Sever do Vouga que não se limita a interpretar música, antes interroga-a, expande-a e devolve-a ao público com uma intensidade que convoca tanto os signos da tradição quanto a urgência do presente. “Precisamos de cantar a poesia. Vivemos momentos muito estranhos e aquilo que os artistas podem fazer é trazer ao público algo de belo e profundo”, disse, justificando o lado intimista da música, nos seus mundos interiores, “como uma necessidade”.
Com Manuel Oliveira ao seu lado nos teclados, o cantor apresentou-se num formato onde cada nota se mostrou essencial, os gestos oferecidos em carícia, as pausas prenhes de emoção e sentido. Como um jogo de sedução subtil, o concerto construiu-se entre a contenção inicial e as explosões súbitas de força e dramaticidade, entre um lirismo quase frágil e a aspereza cortante no verso seguinte. Solidários na beleza e no amor de cada música, os dois artistas em palco mostraram uma respiração comum e uma escuta cúmplice, o que permitiu a cada um dos temas revelar as suas múltiplas camadas, ora de modo íntimo e confessional, ora de uma forma muito física, intensamente visceral. Num registo dúplice e particularmente versátil, a voz de Ricardo Ribeiro soube percorrer emoções extremas com uma naturalidade comovente. “Há fados que dão cabo da gente. É uma cantiga terrível, parece que não tem nada e depois tem tanta coisa que a gente fica cansado e com uma coisa cá dentro”, confessou, depois de interpretar magistralmente “De Loucura em Loucura”, com letra de João Dias, do fado “Cravo” de Alfredo Marceneiro.
Tema após tema, o público foi convidado a entrar nesse movimento pendular, a beleza nascida da tensão entre o que existe e o que se rasga de novo. De “Cinquenta e Um”, com letra de A garota não e que integrará o novo álbum do cantor, nos escaparates a partir do próximo mês, ao inevitável “Mondadeiras” que fechou o concerto num “encore frouxamente reclamado - não sei se por timidez do público, depois de um momento vivido de forma quase reverencial -, o concerto trouxe consigo marcas profundas das raízes alentejanas do cantor, bem como influências do canto árabe, da herança sefardita e de uma ibericidade assumida que atravessa toda a sua identidade artística. O que se ouviu em Sever do Vouga foi um meio-termo fascinante entre o fado que conhecemos e o fado que ainda está por vir, pontuado por temas como “Atraso”, de João Paulo Esteves da Silva, “Lembra-me um Sonho Lindo”, de Fausto Bordalo Dias ou “Por La Mar Chica Del Puerto”, de Manuel Alcantara. Um território onde a tradição não é passado, mas matéria viva, e o presente se faz futuro da melhor música. Um concerto que prendeu e emocionou não pelo excesso, mas pela verdade: uma verdade cantada de corpo inteiro, a confirmar que Ricardo Ribeiro é referência maior e uma voz necessária no rico e complexo universo da melhor música portuguesa.
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