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domingo, 3 de julho de 2022

CINEMA: Shotcutz Ovar Sessão #62 | Festa dos Premiados 2021



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #62
Festa dos Premiados 2021
Escola de Artes e Ofícios
01 Jul 2022 | sex | 21:30


“O Nosso Reino”, de Luís Costa, foi o grande vencedor da 5ª edição do Shortcutz Ovar, ao conquistar o galardão de “Melhor Curta” entre as vinte e seis obras exibidas ao longo do ano. O júri fez questão de realçar o impacto que o filme causou, considerando-o “irrepreensível na sua complexa simplicidade”. Sensíveis à linguagem cinemática do filme e à forma como adapta o romance homónimo de Valter Hugo Mãe, “inquietante na coragem do silêncio e da simbologia”, Leandro Ribeiro, Mónica Santos e Ana Rocha de Sousa souberam encontrar o necessário consenso em torno de uma obra “que nos coloca na vivência do tempo e na quase ausência da palavra como acontecia no cinema de Andrei Tarkovski”. Depois do prémio de “Melhor Curta” conquistado em 2018 com “O Homem Eterno”, Luís Costa torna-se no primeiro realizador a “bisar” o galardão mais apetecido, facto salientado nas breves palavras trocadas com o público e que, para além de expressarem a sua gratidão pelo prémio, teceram elogios rasgados à organização.

Com apresentação e dinamização de Tiago Alves, a noite foi de festa, chamando ao belo espaço da Escola de Artes e Ofícios quase centena e meia de espectadores para esta espécie de “best of” de (mais) um ano de Shortcutz Ovar atípico. Mas ainda que esta 5ª edição tenha tido um arranque titubeante e particularmente tardio, que o número de filmes por sessão não fosse uniforme e géneros como a animação estivessem pouco representados, o certame teve para oferecer trabalhos de enorme qualidade, recebeu salas cheias de um público cada vez mais fiel e afirmou-se, definitivamente, como uma das mais importantes marcas da programação cultural do concelho de Ovar. Com apenas quatro filmes exibidos em nove sessões, a Animação foi o género a receber as primeiras atenções, sendo “Elo”, de Alexandra Ramires, o filme distinguido com o prémio da “Melhor Animação”. Um prémio merecido, não só pela qualidade técnica e estética do filme, mas sobretudo por uma bela história que é um hino às relações humanas no seu sentido mais construtivo e harmonioso, lembrando-nos que todos dependemos de todos para existirmos e fazermos da vida uma doce melodia.

O prémio para a “Melhor Primeira Obra” coube ao filme “Ouro Sobre Azul”, de Andreia Pereira da Silva. “Leveza, franqueza, naturalidade e pormenor” foram marcas indeléveis que o júri decidiu valorizar, num filme que nos fala da perda de inocência e dessa transição para o vago e impreciso mundo da adolescência, onde tudo é sedução e fascínio. Com “Noite Perpétua”, Pedro Peralta trouxe um dos mais marcantes filmes desta edição Shortcutz Ovar, convidando o espectador a viajar até Castuera, na estremenha província de Badajoz, fazendo-o mergulhar no horror da Guerra Civil Espanhola. Inquietante e envolvente, de um realismo profundo e trágico, o filme é um manifesto contra o apagamento da memória e uma simples mas muito bela homenagem àqueles que morreram pela liberdade e são hoje um verdadeiro farol nas nossas vidas. À mensagem do filme, à sua extraordinária imagem, aos planos sequência de cortar a respiração e à superior interpretação de Paz Couso não ficou indiferente o júri que decidiu galardoá-lo com o seu “Prémio Especial”.

Falemos por último de “The Shift”, de Laura Carreira, filme que acumulou uma Menção Honrosa do júri com o “Prémio do Público”. Depois de ter visto “Red Hill” ser distinguido com o prémio “Melhor Primeira Obra” na terceira edição do Shortcutz Ovar, Laura Carreira esteve de novo em foco com um filme profundamente realista que retrata o tema da vulnerabilidade e da fragilidade de quem depende de um trabalho precário para sobreviver. Valorizando o filme no seu todo, o júri realçou “um argumento em que dramaticamente se percebe as consequências imediatas de quem perde um emprego e, com isso, a dignidade.” Numa nota muito pessoal, “The Shift” foi um dos poucos filmes em torno dos quais tinha uma enorme expectativa e que não consegui ver na temporada regular. Vê-lo agora, em condições tão especiais e, ainda por cima, ter tido o privilégio de ser eu a anunciar o prémio, deixa-me imensamente feliz. Um grande fim de festa, que se prolongou pela noite fora com a música da DJ Lara Soft e as conversas sempre animadas em torno do cinema, do seu fascínio, dos seus mistérios, da sua capacidade de agregar interesses e vontades e de fazer de nós pessoas melhores.

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