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domingo, 10 de novembro de 2019

CONCERTO: Charles Lloyd "Kindred Spirits"



CONCERTO: Charles Lloyd “Kindred Spirits”
Guimarães Jazz 2019
Centro Cultural Vila Flor, Grande Auditório
07 Nov 2019 | qui | 21:30


Primeiro, é o piano de Gerald Clayton que se insinua. Lento, sincopado, triste como um lamento. É dele o som que se derrama em fado, as notas a convidar à viagem interior, à introspecção, ao silêncio. Quebrando o solo, a bateria de Eric Harland e o contrabaixo de Harish Raghavan introduzem novos sons, reforçando o ritmo, e pensamos que nunca o fado e o jazz latino estiveram tão próximos. Já a guitarra de Marvin Sewell se adentra por terrenos dos blues quando o todo ganha outra expressividade e o resultado, indecifrável no início, remete cada vez mais para algo reconhecível. Mas é com o tom grave do saxofone de Charles Lloyd, o seu fraseado esclarecido e profundamente límpido, que temos a certeza de estarmos perante uma versão sublime de La Llorona, um tema imortalizado na voz de Chavela Vargas e que, mais do que ao folclore mexicano, pertence ao mundo. Tal como o fado!

Neste, como no inicial “Dream Weaver”, em Zoltan”, no hino identitário dos negros norte-americanos que é Lift Every Voice and Sing ou nos restantes temas oferecidos ao público por essa lenda viva do Jazz que dá pelo nome de Charles Lloyd, a nota foi de transcendência. “Kindred Spirits”, concerto de abertura do Guimarães Jazz 2019, foi todo ele um somar de momentos prodigiosos, deixando o vasto e esgotadíssimo auditório do CCVF completamente rendido ao talento e à vitalidade deste “jovem” de 81 anos. Ao longo de seis longos temas, nos quais se inclui um muito pleiteado e devido “encore”, Charles Lloyd soube encantar pela sua jovial presença em palco, mas sobretudo pelo seu virtuosismo no domínio do saxofone, mas também da flauta, surgida já na parte final do concerto com o tema “Dismal Swamp”.

Saxofonista superlativo e um compositor sofisticado, Charles Lloyd é um músico com uma componente histórica fortíssima, tendo tocado com praticamente todos os grandes nomes do jazz, de Cannonball Adderley a Don Cherry, de Tony Williams a Keith Jarrett. Desta vez, apresentou-se em palco com uma formação que nele é pouco usual, um quinteto, saindo reforçada a ideia de que sempre soube acompanhar-se de músicos de enorme valia. Gerald Clayton provou ser um pianista enorme, quer num registo mais clássico, quer em áreas que apelam à improvisação. Já Marvin Sewell encantou em acordes que fundiram no jazz os géneros do blues e do rock. Discretos mas tremendamente eficazes, Harish Raghavan e Eric Harland asseguraram na perfeição a componente rítmica, suportando os seus pares em melodias preciosas ou em improvisações puramente mágicas. Se há concertos que valem pelos momentos, há igualmente momentos que valem por uma vida. “Kindred Spirits” foi um desses momentos!

[Foto: © Guimaraes Jazz – Centro Cultural Vila Flor | facebook.com/CCVF.Guimaraes/]

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