“Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada”
Márcia (excerto do poema “A Pele Que Há Em Mim”, 2010)
Inaugurada no passado dia 25 de Abril, “É Preciso Espaço para Falhar” transforma a galeria de exposições do Centro de Artes de Ovar num território de suspensão. Ali, o desenho, a pintura, a fotografia e a instalação de Márcia insinuam-se como presença, quase corpo, quase respiração. Dando a ver uma faceta menos conhecida do grande público, Márcia revela-se numa espécie de continuidade subterrânea entre a escrita das suas canções e os trabalhos agora expostos, nos quais se percebe a mesma tendência para transformar a fragilidade em matéria expressiva, a mesma recusa da superfície imediata, o mesmo desejo de procurar no íntimo uma forma de verdade. Se nas suas canções, Márcia trabalha o silêncio, a suspensão e a palavra contida, aqui fá-lo através da cor, da linha e da composição. “É Preciso Espaço Para Falhar” não surge, por isso, como exercício lateral de uma artista conhecida, mas como revelação de um mesmo universo interior expresso noutra gramática. Há nesta exposição um território de procura, insistência e imperfeição, uma consciência aguda de que a criação nasce frequentemente da falha, da fissura e da tentativa inacabada.
O título da exposição funciona como uma verdadeira carta de intenções. Aqui, falhar deixa de significar insuficiência para passar a significar disponibilidade, espaço aberto para experimentar, hesitar, procurar e, sobretudo, permanecer vulnerável diante do acto criativo. Muitas das obras parecem nascer de um território doméstico e emocional cuidadosamente preservado, como se o atelier da artista fosse simultaneamente refúgio, confissão e palco interior. Em várias composições, objectos banais emergem discretamente da penumbra simbólica: uma cadeira vazia, uma guitarra abandonada num canto, uma chávena de café pousada sobre a mesa. Elementos quotidianos, quase invisíveis à primeira vista, mas que acabam por estruturar silenciosamente a relação afectiva da artista com o seu próprio espaço. Não são adereços, antes vestígios da sua presença, sinais de uma vida em curso que continua para lá da tela. Essa capacidade de transformar objectos comuns em lugares emocionais faz com que a exposição nunca resvale para o hermetismo conceptual; mesmo nas obras mais simbólicas existe sempre qualquer coisa de profundamente humano que nos devolve ao reconhecimento de nós próprios.
Ao longo do percurso expositivo percebe-se também o amadurecimento técnico e expressivo de uma artista que, apesar de se apresentar publicamente pela primeira vez neste território, trabalha estas linguagens há décadas. O desenho, o pastel seco, a pintura e a instalação coexistem sem hierarquias rígidas, unidos por um gesto emocional de enorme coerência. Algumas obras mantêm a fragilidade experimental dos primeiros gestos; outras revelam já um domínio seguro da composição e da cor, sobretudo nas obras de maior formato, onde os contornos negros e a vibração cromática criam atmosferas complexas. Márcia não procura impressionar através de virtuosismo técnico nem construir uma persona de artista visual desligada de uma vida dedicada à música. No silêncio da ampla galeria do Centro de Artes, perceberá o visitante que Márcia continua a cantar, tendo apenas trocado a melodia pela cor e a palavra pela matéria do olhar. A exposição estará patente ao público até ao final de Julho e é merecedora de visita atenta e dedicada.
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