A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes volta a confirmar uma linha curatorial que, ao longo dos últimos anos, se tem distinguido pela recuperação e revalorização de nomes fundamentais da fotografia portuguesa e internacional. Depois das homenagens a Eduardo Teixeira Pinto e Gérald Bloncourt, ou da notável apresentação das placas de vidro de Américo Santos, muitas delas contendo registos de Emilio Biel, o festival reserva agora um lugar de particular relevo à obra de Eduardo Gageiro. A exposição “Passos em volta”, patente na Casa da Cultura de Avintes até 31 de Maio de 2026, surge não apenas como evocação de um percurso maior do fotojornalismo português, mas igualmente como um exercício de aproximação crítica a uma obra cuja vastidão permanece, em muitos aspectos, insuficientemente conhecida. O gesto do iNstantes ganha, por isso, um significado acrescido: num tempo marcado pela voragem do imediato, o Festival insiste em devolver tempo, contexto e espessura histórica à imagem fotográfica.
“Passos em volta” retoma o trabalho de investigação em torno do espólio de Eduardo Gageiro iniciado na exposição apresentada, em 2025, no Panóptico do Hospital Miguel Bombarda, no âmbito da Mostra de Fotografia e Autores - MFA Lisboa. A selecção agora reunida - sessenta e duas fotografias provenientes do conjunto adquirido ao autor pela Câmara Municipal de Torres Vedras — evita o caminho mais previsível da simples antologia celebratória. Entre retratos, imagens de rua, cenas de trabalho e registos ligados à Revolução dos Cravos e ao 1.º de Maio de 1974, o percurso expositivo revela sobretudo um olhar permanentemente atento à condição humana e às tensões sociais do seu tempo. Há, nas fotografias de Gageiro, uma capacidade única de transformar o instante documental em matéria de leitura política e emocional. Mesmo quando fixa episódios históricos amplamente reconhecíveis, o fotógrafo procura sempre o detalhe lateral, o gesto anónimo, a expressão suspensa que escapa ao heroísmo fácil da iconografia revolucionária. É precisamente nessa tensão entre proximidade e distanciamento que reside a força duradoura da sua obra.
A curadoria de Valter Vinagre reforça essa dimensão de circulação entre memória colectiva e intimidade visual. Espalhadas por duas salas, as imagens convocam não apenas o arquivo de um país em transformação, mas também a persistência de certas inquietações sociais que permanecem actuais. Mais do que revisitar um “mestre” consagrado, “Passos em volta” procura iluminar as várias zonas da produção de Eduardo Gageiro, sublinhando a amplitude de um trabalho que nunca se limitou ao registo factual do acontecimento. O fotógrafo surge aqui como observador participante, alguém que compreendeu a fotografia enquanto ferramenta estética, política e humana. Ao integrar esta mostra no núcleo central do Festival, o iNstantes reafirma uma vocação rara no panorama cultural português: a de construir pontes entre património fotográfico, pensamento crítico e divulgação pública. Num país frequentemente distraído da preservação da sua memória visual, iniciativas como esta tornam-se essenciais para compreender não apenas a história do fotojornalismo português, mas também a forma como o olhar não se deve demitir de interrogar o presente.
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